
No Brasil, o Congresso Nacional desempenha um papel absolutamente central na geopolítica regional. Historicamente, o Espírito Santo ocupa uma posição política vulnerável, resultado de um processo de formação nacional no qual o estado foi marginalizado. Além da ausência de capixabas nos núcleos que controlam o país, a falta de articulação regional trouxe desafios extras ao Espírito Santo.
No Nordeste, por exemplo, consolidou-se o entendimento de que, mesmo diante de divergências internas, a união estratégica era essencial para a autoproteção política e econômica. Com isso, estados nordestinos conseguiram se proteger, além de eleger presidentes da República, da Câmara dos Deputados e do Senado, além de ocupar espaços de poder significativos.
No Sudeste, a lógica é diferente: competição. Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com suas grandes bancadas na Câmara Federal, são consultados sobre praticamente todas as decisões expressivas do país o que os beneficia muito. Enquanto isso, o Espírito Santo permanece isolado, frequentemente obrigado a aceitar imposições das grandes potências regionais. Um exemplo emblemático foi o fim do Fundap, que trouxe enormes prejuízos econômicos para o estado.
O Congresso Nacional funciona em um sistema bicameral, composto por duas casas, Câmara dos Deputados – que representa a população, com deputados eleitos proporcionalmente ao número de habitantes de cada estado. Senado Federal – que representa os estados e o Distrito Federal, com três senadores por unidade federativa.
Se a lógica é de competição por investimentos e políticas públicas que beneficiem os capixabas, é no Senado que essa disputa acontece de forma mais equilibrada, já que todos os estados possuem a mesma representatividade.
Atualmente, o Espírito Santo tem três senadores: Fabiano Contarato (PT), Magno Malta (PL) e Marcos do Val (Podemos). Essa configuração revela um cenário complexo para um estado politicamente vulnerável, especialmente na Casa Legislativa onde o Espírito Santo concorreria de igual para igual com os demais estados.
Contarato e Magno Malta estão comprometidos com agendas ideológicas, mas ao menos possuem influência dentro dos núcleos petistas e bolsonaristas, respectivamente, que de certa forma estão no centro do poder nos últimos anos. Já Marcos do Val representa um desastre político para o Espírito Santo. Na imprensa nacional, o senador é frequentemente tratado como motivo de chacota.
Recentemente, mais uma polêmica envolvendo Marcos do Val ganhou repercussão: circula um vídeo no qual, completamente descompensado, o senador pede que os Estados Unidos invadam o Brasil para “restaurar a democracia”. Um pedido absurdo, vindo justamente de um brasileiro eleito democraticamente pelo voto popular em um país que vive sob um regime democrático.
Não se sabe exatamente de quando é o vídeo, mas isso pouco importa diante da gravidade do conteúdo. Um senador da República solicitar a intervenção de uma potência estrangeira no Brasil é, acima de tudo, um atentado contra a soberania nacional. Eleito na onda do “troca todo mundo” de 2018, é raro ver Marcos Do Val envolvido em debates estratégicos para o Espírito Santo. Foi no Senado que os capixabas conseguiram investimentos que realmente transformaram a realidade do estado.
Há exemplos concretos na Serra, onde Gerson Camata e até políticos controversos, como José Ignácio Ferreira, foram fundamentais para trazer investimentos estratégicos. Foi por meio do Senado que a Serra obteve recursos para a duplicação da BR-101 no trecho entre Serra Sede e Carapina, a construção da rodovia Norte-Sul, o Ifes de Manguinhos, o Hospital Dório Silva e diversos outros projetos.
E nem é preciso voltar muito no tempo: a ex-senadora Rose de Freitas, no exercício de seu mandato, destravou recursos para investimentos em cidades capixabas que dificilmente teriam espaço no Orçamento da União sem uma forte articulação política. O Espírito Santo depende fortemente do municipalismo, e essa deveria ser a principal função de um senador: atuar como interlocutor entre Brasília e seu estado de origem. No caso da vulnerabilidade política capixaba, essa missão se torna ainda mais essencial.
Infelizmente, de certa forma, o Espírito Santo perdeu essa representatividade, elegendo senadores mais envolvidos com disputas ideológicas do que com as demandas locais. Mas o caso de Do Val é ainda mais grave. Ocupando um assento que já foi de figuras históricas como João Calmon, Atílio Vivacqua, Paulo Hartung e o próprio Renato Casagrande, o atual senador não entregou nada de expressivo para o estado nos sete anos em que ocupa o cargo.
Pior ainda: ao invés de se dedicar a pautas essenciais para o Espírito Santo, se vê envolvido em temas irrelevantes e constrangedores, como a recente polêmica sobre um pedido de invasão dos EUA ao Brasil, algo que soa como delírio ou alucinação política.
O Espírito Santo precisa recuperar sua força no Senado, pois há assuntos estratégicos a serem tratados, como a Variante da Serra do Tigre, que pode consolidar o corredor ferroviário Centro-Oeste e colocar o estado na rota do agronegócio brasileiro. Além disso, é essencial debater a concessão da BR-262 e a duplicação integral da BR-101.
No contexto da reforma tributária, qual será o impacto para o Espírito Santo? O estado precisa de senadores que saibam dialogar com qualquer governo em Brasília, independentemente da ideologia, e não representantes que se limitem a grupos políticos restritos. Esse tipo de erro pode ser tolerável para estados que já possuem forte articulação política, mas para os capixabas, a falta de liderança no Senado é um risco enorme para o desenvolvimento do estado.