Serra, 25 de abril de 2017

Portal Tempo Novo - O Portal da Serra, ES

Mestre Álvaro

por Eci Scardini

Por que mesmo mataram Tiradentes? Tiradentes acabou em pizza de feriado

O tamanho da carga tributária do Brasil atualmente, incluindo aí a seguridade social, está em 33,4%, dados de março de 2016, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Pelo andar da carruagem, se houve alguma mudança nesse índice foi para cima.

Esse índice é bem superior ao Quinto, nome do imposto português, que cobrava 1/5 de todo o minério extraído na Colônia Portuguesa (Brasil), praticamente a única atividade econômica da época. Segundo relatos históricos, na Capitania de Minas Gerais, em 1789, a Coroa Portuguesa resolveu aplicar o mecanismo da ‘Derrama’, que permitia o governador  da época efetuar a cobrança forçada do imposto, que de 1762 a 1789 acumulara uma dívida de 768 arrobas de ouro, que equivale a 11.520 quilos (cada arroba pesa 15 quilos).

Há 250 anos atrás, o Brasil já tinha uma carga tributária de 20% e só a Capitania de Minas Gerais tinha uma dívida externa (com a Coroa Portuguesa) de 11.520 quilos de ouro. A cotação do ouro na bolsa de valores está em R$ 125,50 o grama. Já naquela época o Brasil devia um caminhão de ouro ao Reino de Portugal e transformando na cotação atual, o tamanho da dívida se equipara perto da corrupção e da roubalheira que a Lava jato está apurando.

Amanhã, sexta-feira, é feriado nacional dedicado ao mártir Joaquim José da Silva Xavier, o ‘Tiradentes’, que morreu enforcado em 21 de abril de 1792, na antiga Vila de São José do Rio das Mortes, que hoje leva o nome de Tiradentes. Ele teve seu corpo esquartejado e preso a postes, exposto ao público para desencorajar outros inconfidentes a se insurgirem contra a dominação portuguesa sobre o Brasil e sua avidez na cobrança de impostos.

Resumindo a ópera, o Reino de Portugal encontrava-se em dificuldades financeiras e a Colônia no Brasil era a sua esperança de salvação.

Fazendo uma sobreposição desse passado nos dias atuais, só mudou o ‘modus operandi’, mas a ânsia do governo por arrecadar só aumentou, graças à volúpia do poder. Com as devidas exceções, no Brasil, ocupar cargos nos poderes não é sinônimo de responsabilidade, de obrigatoriedade não; é sinônimo de autoridade, de autoritarismo, de abuso de poder. Em muitos casos de formação de quadrilha, de improbidade e de muitos outros crimes.

Despudor do poder

O Judiciário, com uma independência maior, mas mesmo assim repleto de exemplos de relações promíscuas entre membros de seus quadros com membros dos outros poderes, se destaca. Entretanto, os poderes executivo e legislativo tornaram-se irmãos siameses, vivem colados um ao outro; em muitos casos não se sabe quando termina um e começa o outro; estabelecendo uma relação incestuosa nefasta para a nação, para estados e para municípios.

Via de regra, o governo brasileiro tem sido ruim para com o seu povo, principalmente nessas duas últimas décadas, quando os ditos avanços sociais foram usados para cobrir uma teia complexa e sofisticada de corrupção, desmascaradas a partir da instituição da operação Lava Jato.

No Brasil Colônia a luta era de um povo contra uma nação dominante e imperialista que era Portugal. Teve um mártir, que foi Tiradentes, que liderou um movimento insurgente, abafado pela Corte, mas que não extirpou de vez os ideários da independência.

No Brasil de hoje a luta não é de um povo contra outro povo; nem de uma nação contra outra nação; mas sim de um povo contra o seu governo, contra seus representantes, a quem lhes foram confiados os votos para representá-los nas devidas esferas de poder.

No Brasil de hoje não há mais espaço para um mártir, porque nos tornamos inteiramente um povo mártir frente a tantos desmandos e corrupção.

Lavando a jato os passos para 2018

Por Yuri Scardini

Demorou, mas após três anos, chegou ao ES. Estamos falando da Operação Lava Jato, que na última terça-feira (11) atingiu em cheio uma série de políticos capixabas. Entre eles, quatro dos mais graúdos, estamos falando do atual governador Paulo Hartung (PMDB), do ex-governador Renato Casagrande (PSB), do senador Ricardo Ferraço (PSDB), e do prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS).

Vamos aos fatos, são três situações: Ricardo Ferraço é o único oficialmente investigado pela Lava Jato, sob acusação de ter recebido R$ 400 mil de caixa dois pela empreiteira Odebrecht, referente à campanha ao Senado em 2010.

Casagrande e Luciano foram citados em delações premiadas e tiveram petições para abertura de inquérito à Justiça Federal. Segundo o delator, a Odebrecht teria repassado R$ 2,3 milhões para as campanhas eleitorais de Casagrande e Rezende;

Já a aparição do nome do governador Hartung foi fruto de uma delação do ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto da Silva Júnior. Segundo consta, teriam ocorrido “pagamentos indevidos” a Hartung para as eleições de 2010 e 2012. O STJ ainda irá decidir se Paulo Hartung será ou não investigado. Logo, até então não há processo de Hartung aberto na Lava Jato e nenhum dos citados são réus.

Tais situações são como que novas para a classe política capixaba, portanto, as implicações práticas que isso terá no cenário eleitoral de 2018 são desconhecidas, mas certamente é um ingrediente a mais para embolar o quadro eleitoral, já bastante “animado”, diga-se de passagem.

Fato é que, de acordo com a dinâmica do poder, onde um perde, o outro ganha. Dentro do que está colocado, quem poderia “ganhar” com esse possível novo cenário imposto pela Lava Jato? Já que os principais atingidos fazem parte do núcleo da elite de Vitória, da para dizer que os políticos da Serra podem ganhar mais força.

Na Serra o caldo engrossa bastante

Nesse cenário pró Serra, vale lembrar o prefeito, Audifax Barcelos (Rede), que vem ensaiando uma candidatura ao Governo do Estado desde o fim da eleição de 2016.

Audifax vem fazendo um jogo ambíguo. Ao mesmo tempo em que aparece com a turma anti-Hartung, Audifax nunca fechou as portas para o governador. O prefeito dialoga com os dois grupos, e poderia se colocar como um nome de consenso entre os grupos. Ademais, diante deste novo cenário, a Rede nacional pode ver em Audifax um nome real para se investir e com Marina abraçando o prefeito para valer, o jogo pode ficar favorável ao prefeito.

A senadora Rose de Freitas, desafeto de Hartung e nome forte do PMDB, também surge com força no cenário eleitoral para a vaga de governador, podendo contrair o apoio das lideranças que não caminham com Hartung. Outro que pode ganhar musculatura é o vice-governador César Colnago (PSDB), que vem tendo dificuldade de se encaixar no quadro eleitoral e pode surgir como a solução “limpa” do grupão de Hartung. Inclusive, também não parece haver portas fechadas à Colnago e ao PSDB no outro lado do tabuleiro, no time dos “não-Hartung”.

É muito difícil analisar o tamanho do desgaste que esse fato irá causar até as eleições de 2018, mas esses processos irão rolar, e a cada capítulo, um novo arranjo pode se formar. Ainda mais falando de Lava Jato. Muito se fala em “voos maiores” de lideranças como Vidigal e Audifax, talvez essa seja a oportunidade que estava faltando. Falando em Vidigal, com Ferraço sendo investigado pela Lava Jato, e o desconhecido fim que isso possa ter, o ex-prefeito da Serra teria forças para rivalizar uma vaga de senador?

Se havia dúvidas no tabuleiro de 2018, agora tem ainda mais. No curto prazo, o enfraquecimento de Hartung rebate nas eleições do PT, da qual o candidato a presidente estadual da sigla, Givaldo Viera, ganha mais fôlego com a campanha de retirada dos petistas do governo Hartunguista e com a eminência de um palanque polpudo com Lula.

Desprezo com a saúde de crianças capixabas

Por Yuri Scardini 

Mesmo após a recuada do prefeito de Vila Velha, Max Filho (PSDB) na troca de acusações entre a Secretaria de Saúde de Vila Velha e a do Estado (Sesa), escancarou-se uma realidade atroz, a situação de completa deficiência do sistema de atendimento a saúde infantil.

Resumidamente a prefeitura dos canelas-verdes disse que a superlotação dos seus Pronto Atendimentos (P.A), especialmente o da Glória, é devida a recusa de atendimento principalmente do Himaba, o Hospital Infantil de Vila Velha administrado pelo Estado. Com isso, os pacientes dos P.A’s em estado grave não estariam conseguindo transferência para a rede estadual, abarrotando o sistema de saúde infantil de Vila Velha.

Já a Sesa, por meio do seu secretário, Ricardo de Oliveira, preferiu politizar o assunto, e fez duras críticas à posição assumida pela prefeitura de Vila Velha, caracterizando-a como “absurda”, “irresponsável” e “demagógica”.

Qual correlação deste assunto com a Serra? Vale lembrar que no dia 08 de dezembro de 2016, dia que a cidade completou 460 anos, o Governo do Estado resolveu, de forma unilateral, fechar a UTI Neonatal do Dório Silva e transferir 26 leitos para cerca de 30 km de distancia, exatamente para o mesmo Himaba,  epicentro da atual polêmica.

Com a reforma no Hospital Infantil de Vitória, sobrou apenas o Himaba para prestar esse serviço na Grande Vitória. Uma demanda gigante, inclusive vinda de outros estados, e que certamente teve impacto sim no sistema de saúde de Vila Velha. Até hoje o Estado não prestou esclarecimentos convincentes que validam o fechamento da UTIN do Dório, referência no tratamento de recém-nascidos de alto risco, sendo a Serra a cidade campeã de número de nascimentos de alto risco do ES.

Agora, ao que tudo indica, o Estado terá que prestar novos esclarecimentos, já que as condições do Himaba atrofiou o sistema de saúde infantil da Grande Vitória. Fica a pergunta, em qual medida o fechamento da UTIN do Dório contribuiu para esta situação?

Audifax se consolida entre as principais lideranças nacionais da Rede de Marina

O prefeito Audifax Barcelos (Rede) segue em ritmo acelerado para o fortalecimento da Rede no ES. Segundo consta, vários de seus correligionários e aliados mais próximos têm percorrido o interior capixaba atrás de filiar lideranças e formar um quadro competitivo para as eleições de 2018. Aqui na Grande Vitória, é o prefeito em pessoa que tem feito as principais conversas e tentativas de filiações de políticos mais competitivos.

É natural que Audifax assuma esse papel, inegavelmente ele é uma das grandes lideranças capixabas. É a principal liderança estadual da Rede e um dos principais da Rede no país. Além da milagrosa vitória do prefeito nas eleições de 2016, Audifax segue mantendo o recorde da maior votação para deputado federal no ES (eleições de 2010: 161.856 votos) sendo que nunca perdeu uma eleição. São feitos bastante louváveis.

Outro ponto que levanta a bola do prefeito é a abertura de Audifax com Marina Silva, a maior liderança da Rede e mulher de 22 milhões de votos em 2014. Durante as eleições do ano passado, Marina esteve por duas situações aqui na Serra, inclusive caminhando com Audifax pelas ruas de Feu Rosa adentro.

Entre os seis prefeitos da Rede pelo Brasil todo, Audifax comanda a maior cidade, tanto em número de habitantes quanto pelos recursos de orçamento. O prefeito da Serra se credencia para voar longe, e diante dos sinais, é razoável dizer que Audifax tem respaldo e moral para ser protagonista da Rede no ES. Resta saber o tamanho da envergadura partidária da Rede para ser protagonista no cenário nacional. 

 

Lista escancarada

Por Odmar Péricles

Verdadeiro absurdo propor a tal “lista fechada”, tramada nos bastidores do Congresso Nacional. Lista fechada é coisa de democracias parlamentaristas e secularmente consolidadas, com alguma exceção, que sequer serve de exemplo.

No caso brasileiro, e sua democracia em pleno desenvolvimento (haja vista ultrapassar trinta anos ininterruptos de estado de direito); mas com forte tradição presidencialista e voto personificado, o exercício possível é a desmobilização das coligações partidárias. Ou seja, cada partido político com sua lista própria de candidatos, aberta e escancarada. Voto na legenda partidária ou nos candidatos.

Infelizmente, o propósito que preside o debate nas duas casas legislativas nacionais, nesse momento, nada ou pouco tem de preocupação com a tenra democracia, senão como subtração a própria democracia. E fazer prevalecer interesses escusos, privilégios ae proteção aos políticos em fim de linha, caso vinguem as citações, investigações, denúncias, processos e sentenças da justiça, que via operação lava-a-jato, possa sujeitá-los ao escárnio público e/ou cassação.

Há, portanto, conflito entre a necessidade da readequação dos meios e modos de conquistar a representação política; e a cultural tendência de preservação das vantagens e impunidades dos envolvidos, e que são as faces dessa mesma moeda.

Os muitos elementos que atuam nesse embate: deputados e senadores, situação e oposição, os três poderes, as mídias noticiosas e instantâneas, e cada vez mais antenadas aos fatos; as academias com variado leque de estudos e conhecimentos; enfim, todo esse conjunto somado à opinião pública e aos movimentos sociais, formam o imbróglio dessa trama, cujo desenlace dará nova formatura ao processo democrático da representação do povo, pelo povo e para o povo. O grande caldeirão está no fogo, vamos ver no que vai dar. 

Givaldo: a fênix do PT capixaba?

Por Yuri Scardini

Depois de Lula aparecer em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente, o PT voltou com força para a geopolítica partidária.
Sinal disso é a enorme atenção que o mercado político tem tido com as eleições internas do partido, que vai escolher os comandantes dos diretórios nacionais, estaduais e municipais nos próximos dias.

Aqui no ES, os olhares se voltam para a disputa do deputado federal Givaldo Vieira com ex-prefeito de Vitória, João Coser. Givaldo vem surpreendendo a todos com um posicionamento extremamente áspero e de enfrentamento diferente do estilo dele contra o Palácio Anchieta, administrado pelo governador Paulo Hartung.

Essa movimentação brusca de Givaldo, não parece que tem a ver com um projeto de reeleição para a vaga de deputado federal. O político vem ganhando força. Ainda mais depois de Givaldo se tornar presidente da Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara Federal. Afinal é um capixaba a frente de uma comissão na Câmara de Deputados. Além disso, dá para por nessa conta, o apoio público do senador petista Lindberg Faria (homem da tropa de choque de Lula) à sua eleição para presidência do PT capixaba.

Caso o ex-presidente venha mesmo para a disputa, e Givaldo emergir como o “cara” do PT no ES, talvez, caia no colo dele muito mais que a reeleição a federal. Ainda para se salvarem mutuamente, o blocão da esquerda se unir na nacional. Givaldo pode ser alçado para o Palácio Anchieta, tal como em 2010, quando virou o vice-governador do Estado.

Amando ou odiando, negar a força do PT nos arranjos partidários é um erro, no momento que Givaldo se levanta e diz que o governo do ES faz parte dos “golpistas”, é um sinal claro de que na mira, está o Anchieta, e se Lula abraçar Givaldo, a briga engrossa.

De locomotiva econômica a vagão operário

Bruno Lyra 

A década de 2000 foi pujante para a Serra.  No ritmo do crescimento da economia da cidade construtoras enxergaram potencial para o mercado habitacional da classe média.

A cidade operária formada duas décadas antes pela explosão migratória atraída pelas obras do complexo industrial de Tubarão (antigas CVRD e CST, hoje Vale e ArcelorMittal) e pelos projetos satélites dos Civits I e II dava sinais de que teria uma classe média mais numerosa.

Seja pela evolução social dos que aqui já moravam, seja pela migração de parte dos capixabas das orlas e Vila Velha, Vitória e até de Campo Grande, Cariacica.

Condomínios de padrão só visto até então nas zonas nobre de Vitória e Vila Velha surgiram. O epicentro foi a região de Laranjeiras, nos bairros Colina e Morada de Laranjeiras. Este último já ligado às proximidades de Manguinhos, que também recebeu empreendimentos.

Até áreas fora deste eixo viraram aposta. Vide o caso do Alphaville Jacuhy numa improvável área entre a rodovia do Contorno e os brejos/mangues do Complexo do Lameirão e do Boulevard Lagoa. Este às margens da lagoa Jacuném, na carente e populosa região de Feu Rosa.

Depois de um breve ‘ boom’, notou-se que poucos empreendimentos voltados para esse público conseguiram ocupação plena. Muitos estagnaram e já começam a sofrer desvalorização.  Outros, como o Alphaville – modelo de sucesso em vários estados – seguem engatinhando.

Esperava-se que uma maior presença da classe média na Serra ajudasse a promover a cidade cultural e politicamente. Que virasse a chave do velho populismo, prática arraigada na política local desde a explosão populacional do final da década de 1970. Que transformasse a Serra em protagonista na política capixaba, tal como ela é na economia. Até agora não deu, mas há quem vislumbre que a aspiração a esse protagonismo político possa ter um capitulo novo nas eleições do ano que vem. 

Tem crescimento que nos faz pior

A Serra continua como locomotiva econômica do ES e poderá manter essa posição por anos. Mas é nítido que o baque da crise brasileira e capixaba tem repercutido de forma mais intensa na cidade. Até mesmo as carentes Viana e Cariacica tem conseguido ser mais atrativas para novos empreendimentos que a Serra.

Essa dificuldade está clara quando se nota o mercado imobiliário. Para a Serra só estão previstos empreendimentos de baixo padrão. O presidente Michel Temer anunciou pacotão de mais dinheiro para o Minha Casa Minha Vida e as construtoras já se arvoraram em projetos de condomínios com centenas de apartamentos ocupando terrenos diminutos em bairros menos valorizados da cidade.

O verniz do crescimento econômico e melhores condições de vida a população de baixa renda que se vende com esses projetos escondem uma cilada. As construtoras que levam dinheiro público e depois deixam a cidade. Aos mutuários, fica o sofrimento de um pagamento que pode ser inviabilizado pelo desemprego ou baixa remuneração.

À cidade, muita aglomeração com reflexos negativos na já deficiente infraestrutura. À prefeitura, a pressão por ofertar mais vagas em creches, escolas, postos de saúde. Quando não, mais cestas básicas e outros benefícios sociais diretos. Isso num cenário de arrecadação em franco declínio.

É a prefeitura responsável pela gestão do espaço urbano. Cabe a ela ter visão de conjunto e disciplinar a ocupação do solo. Ela pode, se quiser, impedir a proliferação de condomínios que vão trazer mais ônus do que bônus. Se não o fizer, a cidade corre risco de permanecer sem vida cultural, sem identidade, sem teatros, estádios, com a vida noturna cerceada pela violência.  E seguirá ouvindo os moradores dos outros lugares do ES dizendo: vai pra Serra? Boa sorte!    

Para viver num mundo mais árido

Por Bruno Lyra

Os moradores da Serra, das outras cidades da Grande Vitória e do restante do ES terão que se acostumar a viver com pouca água. A superseca – a pior já registrada na história do estado – é passageira, uma hora volta a chover. Isso pode resolver o problema da escassez por umas semanas, mas a escassez de água logo voltará.

O motivo é simples. Enquanto o volume de água das atuais fontes fornecedoras – rios e lençóis subterrâneos está caindo por conta das mudanças climáticas e má gestão, o consumo aumenta. Seja pelo crescimento da população, seja porque o consumo per capta é cada vez maior. 

O caminho para não ficar sem água em casa é ser criativo (a) e se adaptar a nova realidade. Na semana passada Tempo Novo mostrou exemplos de moradores da Serra que já estão fazendo isso. Gente que cria reservatórios para guardar a água da máquina de lavar roupa; que capta água de chuva; que recupera a água do ar condicionado; que reaproveita água usada para lavar alimentos e usa para molhar plantas.

E mais: utiliza o líquido descartado das piscinas para limpar chão; usa balde para lavar carro e reduz a freqüência desse ato. Nem precisa dizer que banhos mais curtos com torneiras fechadas ao ensaboar e também ao lavar louça e escovar dentes é dever de casa inadiável.

Com o tempo novas regras devem impor as novas construções, comerciais e residenciais, um layout visando à recirculação de água. Também devem surgir mecanismos de punição efetiva a quem desperdiça.

Como o restante dos brasileiros – exceto os dos sertões mais secos – os capixabas se acostumaram com a abundância de água. Em grande parte do planeta já não é assim há décadas. A nossa vez chegou. E como estamos numa economia de mercado, água rara, água cara. Comida cara, bens caros. Tudo precisa de água para ser feito.

Além da criatividade, cabe ao cidadão cobrar dos políticos mais ações efetivas para aumentar a quantidade e qualidade das águas. É também tarefa deste eleitor – que é consumidor de bens e serviços – ver como as empresas estão tratando esse recurso, deixando de consumir produtos daquelas que são relaxadas com o precioso líquido. E cobrar que as autoridades exerçam o papel para o qual foram pagas e inibam as más práticas. 

Novas promessas do governador

É tradição dos últimos governos de Paulo Hartung (PMDB) e também do seu antecessor Renato Casagrande (PSB). Na semana internacional das águas, chama-se a imprensa, representantes das grandes empresas e lideranças políticas para uma pomposa solenidade no Palácio Anchieta, onde o governo anuncia ações em prol da conservação dos rios e garantia da segurança hídrica.

Nesta edição, Hartung foi bem ao admitir com ênfase que a superseca no ES não é um evento sazonal, mas fruto de mudanças climáticas profundas e que não atinge só o estado. Augusto Ruschi já alertava para isto na década de 1960. Seu filho André Ruschi, morto em abril de 2016, seguiu alertando para o perigo nos anos posteriores.

Em 2007 o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) da ONU já avisava que o ES e parte do Brasil central, sul da Amazônia e a região Nordeste ficariam ainda mais quentes e a seca aumentaria ao longo no século XXI. 

Na época, pouco foi feito para reverter o quadro no ES. Muito dinheiro do Banco Mundial já entrava para obras de saneamento, mas rios, lagoas e praias da Grande Vitória não melhoraram. Já se falava na hipótese da planta siderúrgica de Tubarão (Vale e ArcelorMittal) usar esgoto tratado ao invés da água limpa do cada vez mais frágil rio Santa Maria. Hartung liberou a expansão das gigantes, a despeito das reclamações sobre a poluição do ar. E não as obrigou a usar esgoto tratado.

Agora o governador promete que isto vai acontecer. Essa promessa já tinha sido feita em 2015 em entrevista ao Tempo Novo. Hartung anunciou também a inauguração do sistema Reis Magos em maio para reforço no abastecimento da Serra. Tomara que a água do mar que invade o rio – cerca de 13km até o ponto de captação  e a pequena vazão em períodos de estiagem –  não inviabilizem o sistema.

Lances de Hartung rumo às urnas

Yuri Scardini 

Depois do radical corte de investimentos e até de custeios em todo o ES e a crise na segurança pública capixaba, o governador Paulo Hartung partiu de vez para o tabuleiro partidário rumo às urnas de 2018. A estratégia parece ser encurralar a turma do ex-governador Renato Casagrande (PSB) no que tangue aos arranjos partidários, isolando-a. E isso, ninguém pode questionar, Hartung é “o cara” para este tipo de movimentação.

Hartung deixou de vez o argumento “técnico” de escolha de nomeados para o governo e partiu para acomodar lideranças das mais diversas siglas partidárias. Diminuindo a capacidade de articulação dos membros do núcleo casagrandista.

Além de trazer partidos como PTB e PRP que estavam na planície política, Hartung fortalece seu relacionamento com DEM, PSD, PDT, PT e PSDB.

Falando em PT, a eleição interna da sigla está pegando fogo. Hartung não pode deixa o PT solto, é um risco para os planos do governador. A eleição petista virou cabo de guerra entre Hartung e Casagrande.

Diante das pesquisas de intenção de voto para presidência, que colocam Lula em primeiro lugar, o PT é uma peça chave. Caso o grupo encabeçado por Givaldo, que é ligado a Casagrande, tome o controle de Coser e sua turma (que tem relação umbilical com Hartung) abrirá uma possibilidade para o PT e o PSB se unirem em 2018, ainda mais pelo fato do PSB dificilmente apresentar um nome para presidente.

Se Hartung conseguir manter seus aliados no PT, como fazer para conciliar o PSDB no grupo? A saída pode ser simples, inventar uma chapa alternativa. Igual foi à eleição de 2014, quando o então deputado estadual Roberto Carlos, do PT à época, veio na condição de candidato ao governo, e deixou Casagrande a ver navios. Com isso, mesmo no cenário nacional, caso o PT e o PSB decidam caminhar juntos, Hartung teria espaço para descontruir essa aliança aqui no ES.

O que sobrou para Casagrande? O PHS, o PPS e o PV e alguns outros partidos de menor expressão. Apesar de ter o prefeito de Vitória, Luciano Rezende, não se vislumbra em nenhum desses três partidos, uma base substancialmente forte para colocar candidaturas de senador e até de federal, com competitividade.

Da Rede de Audifax ao PDT de Vidigal

Neste cenário, não é impossível pensar na Rede compondo com este grupo, trazendo o prefeito Audifax Barcelos para a cabeça de chapa e o próprio Casagrande na condição de senador. Até porque, a Rede tem o nome de Marina Silva para a presidência, o que pode contribuir para a junção dos partidos.

Também não é impossível que o núcleo de Casagrande termine com o PDT do ex-prefeito Sérgio Vidigal. O PDT também tem nome para presidência. Ciro Gomes. Seria uma ironia do destino se Marina Silva e Ciro se unissem, com Marina vindo na vice do pedetista. Este sem dúvida seria o cenário mais atraente para o PSB de Casagrande, pois teria espaço para trazer ambas as siglas para o seu lado e com isso ofertar um leque de candidatos muito promissores na chapa, rivalizando para valer com a turma de Hartung.

Além das dúvidas partidárias, tem as incógnitas políticas. Amaro Neto (SD) é uma delas. O deputado mostrou que tem capilaridade eleitoral durante a campanha de prefeito ano passado. Pensar em Amaro para federal é bem possível. Há quem diga que até para senador ele teria condições para vir, mas aí, a briga é de cachorro grande.

Ensaio do bloco da eleição

Por Yuri Scardini 

O carnaval passou e agora é hora de levar a política para os preparativos no barracão das alianças e deixar os grupos bonitos para avenida eleitoral. As movimentações para as eleições de 2018 já se delineiam e até com contornos mais intensos. 

 Um sinal da pegada mais política foram as últimas nomeações do Palácio Anchieta, que diminuiram os espaços para os chamados “técnicos” e acomodou várias lideranças políticas, como, por exemplo, o ex-prefeito de Vila Velha, Neucimar Fraga (PSD), na condição de subsecretario de Logística, Transportes e Comércio Exterior.

Na mira, em primeiro lugar, está a cadeira de governador, hoje ocupada pelo (ainda) peemedebista Paulo Hartung. Posição responsável por gerir um orçamento de cerca de R$ 16 bilhões ao ano. Soma-se a cadeira do governador, duas vagas de senador, dez vagas de deputado federal e trinta de estadual.

Candidatos a cadeira de governador tem muitos, mas conseguir chegar em condições reais para isso em 2018, já é outra história. O que pode dizer com certa clareza, é que a divisão dos grupos políticos do atual governador Paulo Hartung e do ex, Renato Casagrande (PSB) vai ficando mais explícito.

Prova disso, são as movimentações observadas na eleição da Associação dos Munícipios do Espírito Santo (Amunes), que acontecerá no próximo dia 28 de março. A eleição é vista como um termômetro no meio político e pode por os dois grupos novamente em lados opostos.

Outra questão que vem apresentado o DNA da disputa Hartung vs Casagrande, é a eleição interna do PT, para a escolha dos diretório estadual e municipais. Mais uma vez, os dois grupos apresentam aliados na disputa. O PT inclusive, que mesmo com o alto desgaste, pode ser mais do que definidor na geopolítica, uma vez que o ex-presidente Lula, até então lidera as pesquisas para a presidência da república.

Fato é que mesmo mantendo essas disputas, quem sabe se Paulo Hartung e Renato Casagrande serão candidatos a governador em 2018? Sequer sabemos se novas regras eleitorais surgirão para favorecer certos interesses ou inibir outros.

Aliados bem próximos a Casagrande contam que o ex-governador quer manter o grupo e estaria disposto a disputar as vagas de federal para cima. Já Hartung, disse publicamente, durante coletiva de imprensa que não pretende a reeleição, e estaria propenso a brigar por uma cadeira de senador. Muitos duvidam, mas caso esse duplo cenário se concretize, vai escancarar um leque de novas possibilidades.

Assanhados da hora e a urna generosa da Serra

Até mesmo o prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS) vem se assanhado no sentido de crescer seu nome para o governo do estado.  O prefeito Audifax (Rede) é outro que pode aspirar seu nome na disputa. O argumento da candidatura à presidência da líder do Rede Sustentabilidade, Marina Silva, daria combustível a este voo do prefeito serrano. Só para lembrar, Marina esteve presente durante o segundo turno da campanha eleitoral ano passado, e na ocasião andou pelas ruas de Feu Rosa com o então candidato à reeleição.

Mas por hora, é quase tudo balão de ensaio. 2017 é ano de ocupar os maiores espaços possíveis, olhar para dentro dos partidos, tentar formar grupos expressivos e principalmente, não errar. Rebolar para evitar ao máximo o desgaste que a escassez de recursos e crise econômica traz.

Certeza é que a aqui na Serra, será um dos locais de maior peso. A Serra que rivaliza com Vila Velha na condição de maior eleitorado capixaba, é uma cidade com menos identidade que os canela verdes, portanto ficando mais aberta a atuação de políticos “forasteiros”, além de ter uma sua grande maioria, uma população carente e de baixa renda. Condições muito sedutoras para uma eleição de tende a ter menos recursos que as anteriores.

O suplício do bucólico e charmoso balneário

Ansiedade, medo e preocupação predominaram sobre moradores e frequentadores de Manguinhos neste carnaval, na maioria das classes A e B. Foi a primeira folia em que dividiram o espaço com os novos moradores de Ourimar, bairro vizinho, que há menos de um ano ocupam prédios populares, voltados para as classes D e E. Conjunto de prédios esse, ironicamente apelidado de ‘Carandiru’.

A área que abriga esse conjunto tem 50 mil metros quadrados e pertencia à EDP Escelsa, onde mantinha um centro de treinamento. Depois ficou ociosa e foi colocada à venda. Foi decretada de utilidade pública pelo ex-prefeito Sérgio Vidigal, em 2009.

Na ocasião, o Município estava contraindo empréstimo junto ao Banco Mundial para obras de infraestrutura com foco no turístico. O Banco Mundial colocou como medida compensatória a despoluição de Manguinhos, principalmente dos córregos que partem de vila Nova de colares, Feu Rosa, cujas margens estavam ocupadas por invasores.

O projeto inicial visava transferir essas famílias e alojá-las em um conjunto com infraestrutura e assim, atender à medida compensatória do Banco Mundial.

Inicialmente pensou-se em fazer uma vila de casas germinadas, mas não atendia o número de famílias. Partiu-se então para um projeto de apartamentos, não os quase 700 de hoje.

Como a desapropriação e as obras seriam pela Caixa, no programa Minha Casa Minha Vida, o número de apartamentos inicialmente, não remuneravam o suficiente para bancar o empreendimento e garantir o lucro do banco. Foi quando buscou-se o máximo de unidades que o local permitia. Esse foi o primeiro item que começou a desfigurar a ideia inicial.

O segundo veio com as enchentes do final de 2012 e inicio de 2013, que inundou boa parte da Serra. Isso obrigou o município a alugar imóveis para desalojados, no programa de aluguel social, aumentando muito essa despesa.

Enquanto as obras do conjunto eram tocadas, a Prefeitura iniciou cadastro de interessados e com filas enormes de pessoas tentando garantir um apartamento. Aquilo que seria restrito aos moradores do entorno de Manguinhos foi escancarado, vindo gente até de outros municípios.

O dinheiro do Banco Mundial não saiu e muito menos a despoluição. Criou-se um problema maior, um conflito de classes sociais.

Dentro do ‘Carandiru’ conflitos são comuns eles, brigas, assassinatos, tráfico e uso de drogas. São quase 700 famílias vindas de diferentes regiões do município e até de fora, provavelmente mais de duas mil pessoas, ocupando ‘apertamento’ de pouco mais de 40 m2. Tornou-se um lugar onde as regras condominiais não são respeitadas e onde pode acontecer de tudo.

Manguinhos nas mãos da Prefeitura e da MRV

Manguinhos nunca mais será o mesmo. Acabou-se a tranquilidade, pois são aproximadamente 400 metros que separa um do outro, percurso fácil de fazer a pé.

Jovens e adolescentes descem em grupos para a praia, a qualquer hora do dia e dado o comportamento deles, impõe medo e terror aos moradores. Enquanto isso há registros de arrastões, aumento no número de roubos de carros, às residências, ao comércio e assaltos à mão armada.

Esse carnaval deixou bem claro que Manguinhos não será mais a mesma praia, frequentada por famílias que se juntavam no último recanto bucólico do nosso litoral, para desfrutar da calmaria, da beleza natural e do convívio alegre, despojado e acolhedor característico do local, com seus bares e restaurantes famosos em toda a Grande Vitória, bem frequentados por uma elite econômica e intelectual.

Manguinhos vive a mesma ocupação desenfreada e impensada que vitimou e condenou Jacaraípe. E se a Prefeitura permitir que a MRV construa o volume de apartamentos que quer fazer no entorno do bairro, a situação se agravara dezenas de vezes.

 

Esquadrão da morte e epidemia de violência

 

Por Thiago Andrade

Para compreender o impacto da criminalidade violenta que se espalhou de norte a sul do Estado no período de crise da segurança pública, é fundamental analisar a evolução dos homicídios, em especial, do ano anterior. Em 2016, de 01 de janeiro até o dia 20 de fevereiro, foram registrados 185 homicídios em todo Estado. De acordo com os dados repassados pelo Sindicato dos Policiais Civis divulgados até segunda, dia 20, em 17 dias de crise de segurança, foram 177 assassinatos em todo solo capixaba. No período mais acentuado crise, perdemos o direito de ir e vir. Experimentamos múltiplas formas de violência e esquecemos, inclusive, o surto de febre amarela que ronda o Estado.

A epidemia foi de assassinatos e começou após a deflagração do movimento organizado por familiares dos militares estaduais, impedindo que a Polícia Militar realizasse o patrulhamento ostensivo. Além do elevado número de homicídios, foram registrados diversos crimes, como furtos e roubos, inclusive com alguns resultando em morte, além de incêndios em ônibus que circulam na Grande Vitória.

Neste contexto, surgiram várias especulações sobre a participação de policiais militares e outros agentes da segurança pública envolvidos nesses homicídios, trazendo à tona a ideia da existência do famigerado “esquadrão da morte”, que ganhou notoriedade no Espírito Santo e em outros estados, depois que as mortes à bala passaram a ser vistas como uma maneira de se manter o controle.

No entanto, com o passar dos anos, ficou evidente que os homicídios utilizando esse modus operandi, em vez de controlarem o crime, acabavam provocando novos assassinatos, em círculos ininterruptos de violência. Ora, se por um lado eliminavam suspeitos, consolidavam o medo da morte e estimulavam o desejo de vingança. Estudos apontam que o esquadrão da morte representou o início da epidemia de assassinatos, por colocar em prática uma nova forma de controle social, bem como de lidar com homicídios em sociedade.

De acordo com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, há denúncias que apontam o envolvimento de agentes da segurança pública nos homicídios registrados no período da crise. Após a sucessão de mortes, a Secretaria de Segurança Pública divulgou a criação de uma Força Tarefa para apuração dos assassinatos, visando identificar autoria e motivação. Que os autores sejam responsabilizados.

Ainda sofrendo com a insegurança, cidades estão cancelando os eventos carnavalescos, mesmo nos locais onde a folia era uma tradição. Um prejuízo incalculável para diversos setores da economia. No geral, a população capixaba ainda não retomou todas as suas atividades. As marcas da crueldade ainda estão recentes, sequelas que vão além da violência física. A pergunta é: até quando?

Mestre em Segurança Pública e Professor Universitário

Fatos e versões na crise

Eci Scardini

Diz o ditado popular que ‘depois da tempestade vem a calmaria’; podemos então afirmar que estamos na calmaria, se compararmos ao que vivemos na semana passada, a pior crise de segurança pública já registrada na história do Espírito Santo. Tomara que o fato sirva de exemplo para que uma crise como essa não volte a se repetir.

Tem um provérbio chinês que diz: ‘todos os fatos têm três versões: a sua, a minha e a verdadeira’. A melhor maneira de chegar a versão verdadeira é ir atrás de informações e o melhor local para se buscá-las para casos relevantes é o circuito Praia do Canto e Enseada, na Capital. É percorrendo as imediações do Tribunal de Justiça, de Contas, Assembleia Legislativa e Ministério Público que se tem condições de chegar a versão mais fidedigna dos fatos.

Na crise que assolou o Estado e que causou mais de uma centena de vítimas fatais, precedida também de saques, assaltos, arrastões, roubos de carros, confinamento forçado da grande maioria da população e prejuízos financeiros incalculáveis para o Estado, para empresas, poder público e pessoas físicas também se aplica o provérbio chinês.

A versão difundida pelo governador, vice-governador, secretário de Segurança e comandante da Polícia Militar é a versão deles. Não quer dizer que é totalmente verdadeira e nem totalmente falsa. O mesmo se aplica aos líderes do movimento e às entidades que representam os policiais militares. Muitas informações foram ocultadas para que a versão de cada um se sobrepusesse a do oponente, conforme a conveniência política.

Nesse emaranhado de informações, o Governo do Estado leva a melhor dado o peso da sua caneta e a impulsividade do governador, que agrega consigo setores importantes, inclusive a mídia. O movimento de esposas, mães, parentes e amigos dos policiais foi desmoralizado pelo ímpeto do governador, mas isso não significa que a opinião pública isenta o Governo e o governador de culpa e que não esteja enojada da figura do secretário de Segurança também.

Erro do Governo e da tropa

 Não tem como apagar esse episódio da história do Espírito Santo e nem como tirá-lo do currículo do governador, trouxe muitas lições para os dois lados.

Uma é que o Governo nunca deve ignorar as reclamações da tropa. Se estão precisando de coletes, compre; se reclamam da precariedade dos armamentos e munições, providencie novas; não exija que os PM´s comprem suas fardas; faça as promoções conforme prevê a lei; dê o tíquete-alimentação adequado e negocie o reajuste dentro da capacidade do Estado. O que não pode é exigir tudo e não dar nada.

              Quanto à tropa, fica a lição de que não se pode descumprir a Constituição Federal nem a hierarquia militar, sob pena de sofrer as sanções previstas. O erro do governo serviu de pretexto para o erro da tropa. E quem pagou o preço pela negligência e precipitação de ambos os lados foi a sociedade.

            A intervenção federal na segurança do Estado foi correta e eficiente, apesar da rispidez do ministro da Defesa, Raul Julgman. E não poderia ser diferente. Se a estratégia usada aqui pelos parentes dos militares avançasse para além fronteiras do Espírito Santo, a segurança nacional estaria ameaçada.

Quando o governo federal percebeu a gravidade da crise e o risco que ela representava de se alastrar para outros estados, interveio; foi no cerne do problema, colocou forças armadas e a Força Nacional nas ruas sem medir quantidade, abafou o movimento e deu exemplo para o resto do país. Resta saber quanto a presença dessas forças custará para os cofres do Estado.

Responsabilidades na desgraça

Bruno Lyra 

É provável que o Espírito Santo esteja vivendo os piores dias de sua história em relação à segurança pública. Possível também que o clima de terror enfrentado pelos capixabas seja inédito até na história do Brasil. Não há registro de que em algum momento outro estado tenha registrado tantos homicídios, assaltos, saques, de forma tão generalizada, da região metropolitana às cidades do interior.

A capilaridade e velocidade das redes sociais – hoje na palma da mão de grande parte da população – ajudaram a disseminar o pânico. Principalmente com a avalanche de boatarias, concorrendo com as notícias reais. Por outro lado, essas redes também auxiliaram as pessoas a cooperar entre si e amenizar as dificuldades. 

Embora fosse difícil – se não impossível – prever que um cenário tão devastador pudesse acontecer, a crise da segurança está longe de ser algo isolado. A despeito da tentativa do Governo do ES de vender a imagem de que é modelo e da presunção de que pilota o estado no rumo certo, a realidade aqui é bem outra.

A crise econômica que atinge o país aqui é muito pior. Seca, paralisação da Samarco, fim do Fundap, perda dos royalties, desinvestimentos da Petrobrás. Uma sequência de desgraças que fez nosso PIB despencar dois dígitos em 2016. Isso num contexto de crise política nacional; poucas vezes na história as instituições políticas e até o judiciário foram tão questionados quanto agora.

Não dá para creditar ao governador Paulo Hartung todos os problemas, mas ele é co-responsável. A nossa fragilíssima (um problema histórico) representação política em Brasília também tem sua conta nessa fatura.

Nesse caso específico da greve da PM, é difícil acreditar que o governo não tenha percebido os sinais de radicalização do movimento dos policiais, que há tempos reivindicam melhorias salariais. Da mesma forma que é difícil acreditar que tal movimento e a crise institucional que ele está gerando seja exclusivamente por questões salariais.              

Polícia Militar e sociedade civil

O clima nas ruas é de terror com a barbárie imperando. Se os capixabas (e grande parte dos brasileiros) nunca puderam usufruir seus direitos constitucionais de forma plena, agora praticamente lhes foi tirado tudo. Ir e vir, acesso à saúde, educação, trabalho, lazer. Tudo porque a segurança foi suprimida pelo motim da Polícia Militar, que recusa a fazer seu papel constitucional e ousa desobedecer os poderes constituídos. Como falou bem o arcebispo do Espírito Santo, Dom Luiz Mancilha, não se pode exigir aumento salarial a qualquer custo. 

Claro que é justo que os policiais da base e que estão no front da luta contra o crime – soldados, cabos e sargentos – mereçam melhores condições. Para as altas patentes isso é muito duvidoso.  A justificativa da PM de que não vão às ruas por estarem impedidos por seus familiares é cena de um teatro burlesco. Por mais erros que o governo Hartung venha cometendo – e não são poucos – na gestão do ES, a opinião pública não aprova o movimento.

O que está acontecendo no Espírito Santo não pode se alastrar pelo resto do país. A imagem da Polícia Militar está cada vez mais arranhada. É uma instituição que deve servir a sociedade e não o contrário.  Outras categorias, quando protestam, são reprimidas com violência pela PM.

Porque essa mesma Polícia não usa dessa força para retirar os gatos pingados que supostamente estão obstruindo os quartéis? É o questionamento que não apenas se ouve em todo o ES, mas que também já levou a população civil (que paga a conta) a tentar retirar tais manifestantes da frente dos quartéis, aumentando o risco de uma carnificina ainda maior.   

É bem provável que essa situação amplie o debate sobre a desmilitarização da polícia.

Sem crescimento, sem obras

Por Yuri Scardini

Segundo dados do Tribunal de Contas do Espírito Santo (TC-ES), na Serra existem cerca de R$ 130 milhões em obras paradas de responsabilidade da prefeitura da Serra. Entre essa obras estão pavimentação e drenagem; unidade de pronto atendimento; escolas; entre outras. Sem dúvida não é uma realidade apenas do município da Serra.

Muitas prefeituras capixabas, senão todas vêm sofrendo com a dificuldade de manter a agenda da realização das obras previstas. Porém na Serra, a cidade que registrou maior crescimento efetivo nos últimos anos, essa realidade é mais cruel. Além das obras, as cidades começam a ter problemas financeiros graves e o fantasma do colapso fiscal que vive o Rio de Janeiro causa cada vez mais temor.

A Serra tem a maior demanda social do estado, que em épocas de crise fica mais latente. E vem perdendo terreno até mesmo na atração de empresas. Cidades mais pobres e com infraestrutura mais modesta como Cariacica e Viana estão tendo mais êxito neste quesito; Uma concorrência que não existia nos anos 80 e 90, quando o crescimento da Serra consolidou a cidade como a locomotiva econômica do ES.

Há situações específicas que ajudaram a mergulhar a Serra neste cenário preocupante: a paralização da Samarco – diversas fornecedoras da mineradora ficam aqui, o fim do Fundap, a crise econômica internacional e a desaceleração do crescimento econômico da China, que contribuiu para jogar para baixo o preço das commodities que fazem parte da matriz econômica capixaba, principalmente o petróleo. Mais recentemente a saída do centro de distribuição da Petrobrás do polo do TIMS agravou a situação.

Isso visto a curto prazo, é claro. Se for analisar a longo prazo, o buraco pode ser muito mais embaixo, uma vez que estes dinossauros do carbono (mineração/siderurgia e petróleo) estão cada vez mais em xeque com políticas de reciclagem, o apelo da sustentabilidade e do aquecimento global.

Para a locomotiva não quebrar

Apesar do discurso ufanista do Governo do Estado, o Espírito Santo vive dias preocupantes. Tem a seca que se estende por três anos, um duro golpe em nossa agropecuária que é quase toda familiar – exceções feitas ao arranjo produtivo da produção de ovos em Santa Maria de Jetibá e as áreas de cultivo de eucalipto da Fíbria para a produção de celulose.

E no meio dessa crise toda permanecem as graves deficiências de logística, que atrofiam nosso potencial para diversificar a pauta de exportações e importações, dada a posição que o estado tem no litoral Brasileiro. Deficiência essa que atinge em cheio a Serra.

O potencial turístico é subaproveitado. Tanto pela degradação ambiental de nossas principais praias, quanto pela ausência de uma política consistente de apoio ao setor. Boa parte de nosso turismo de verão continua com baixo gasto per capta e pressão inversamente proporcional sobre a deficiente infraestrutura das mesmas. Nas montanhas, Pedra Azul é uma exceção.  

Quando se olha a economia sob tal perspectiva, a questão das obras públicas na Serra parece o menor dos problemas que a cidade irá enfrentar. A Serra precisa de uma nova âncora de economia, capaz de dinamizar a vinda de investimentos mais sofisticados e sustentáveis. Mira-se em um aeroporto internacional de cargas entre Jacaraípe e Nova Almeida, um porto em Carapebus e o polo tecnológico na Rodovia do Contorno são projetos arrojados que o poder público ainda não deu a atenção necessária. Talvez por não saber ao certo como começar, esbarrando sempre em questões políticas e  econômicas.

Enquanto isso, o poder público municipal se resume a gestor da imensa e cada vez maior demanda social, conta que vai estourar em breve se o rumo não for corrigido. Este é o grande desafio para que a locomotiva econômica capixaba volte a puxar o crescimento do estado.  

Nem tudo que é legal é moral

Por Yuri Scardini

Transparência. Essa é uma palavra que vem sendo ignorada pela prefeitura da Serra. Atualmente apenas um núcleo pequeno de pessoas, que compõem a espinha dorsal da gestão de Audifax Barcelos (Rede), sabe ao certo o que vem sendo feito neste primeiro mês do ano, que é também o 1º ato da 3ª gestão do prefeito reeleito. Isso porque, os atos administrativos, em especial os decretos assinados pelo prefeito, têm sido publicados em uma plataforma pouco convencional para os dias de hoje.

As publicações dos atos administrativos vêm sistematicamente sendo feitas no mural, que fica no hall de entrada da Prefeitura, em Serra-sede. E ficam afixadas por pouco tempo, logo são retiradas. Um sistema arcaico de divulgação dos atos públicos, digno do tempo do império.

É verdade que a lei prevê a publicação neste tipo de plataforma. Pode ser legal, mas é imoral. Ainda mais em tempos de internet, onde a baixo custo, podem ser publicados tais atos e a sociedade que paga a conta, possa acompanhá-los.

Ao publicar seus atos em um mural estático na Serra-sede, local distante para a maioria dos 500 mil moradores do município, a prefeitura anda na contramão do que a população espera e anseia do poder público, ainda mais neste período de instabilidade e incerteza que o Brasil vem atravessando.
Sem contar que vivemos um momento crítico de desgaste dos políticos no Brasil, onde a sociedade anseia por moralidade, ética e eficiência com a coisa pública, ideais que não podem ser atingidos sem o aperfeiçoamento das ferramentas de transparência.   

Causa ainda mais espanto a decisão absurda da administração, se recordarmos o discurso de Audifax ao deixar o PSB para ingressar no recém-criado Rede Sustentabilidade, que a nível nacional é liderado pela presidenciável Marina Silva.  Segundo Barcelos, a mudança aconteceu porque ele acredita na “nova política” em oposição das velhas práticas dos partidos mais antigos que jogaram a classe política no descrédito generalizado. 

Não é nada congruente que, em plena era digital, a plataforma escolhida para dar publicidade aos atos da prefeitura do maior e mais industrializado município do Espírito Santo, localizado em plena região Sudeste do Brasil, seja um velho mural.

De 300 decretos, só 17 estão online

Os decretos que o prefeito Audifax têm assinado não vêm sendo publicados nem no Diário Oficial dos Municípios do Espírito Santo, administrado pela Associação dos Municípios do Espírito Santo-Amunes. Plataforma que vinha sendo a forma oficial de comunicação adotado pela Prefeitura há anos.  O diário, que é virtual e pode ser acessado por todos através do endereço www.diariomunicipal.es.gov.br, tornou-se o veículo oficial em 2014, a partir da lei 4.235/14. Porém, a Prefeitura tem feito vista grossa e administrando a Serra como se fosse uma cidadezinha perdida no sertão no tempo dos coronéis, pelo menos no que diz respeito à transparência.

O pouco caso com a transparência dos atos da gestão Audifax também se faz presente no próprio site da Prefeitura (www.serra.es.gov.br). Dos quase 300 decretos assinados pelo prefeito até o dia 13 deste mês, apenas 17 foram publicados no site da Prefeitura (link legislação). Todos eles de nomeações de secretários.

Curiosamente, todos esses decretos foram deletados do link legislação, do site da Prefeitura. Servidores municipais, da Câmara, entre outras pessoas que têm o hábito de acompanhar tais publicações, principalmente com o intuito de ver quem está sendo nomeado para cargos comissionados, ficaram surpresos com a ocultação dos atos.

Servidores que vinham ocupando cargos comissionados tidos como técnicos e que foram exonerados dia 31 de dezembro, ficam vasculhando em vão as publicações online para ver se foram renomeados. Com medo de retaliação, muitos desses servidores têm preferido não se expor, mas, à boca miúda, têm demonstrado indignação, pois estão trabalhando sem saber se vão ou não receber.

Cicatrizando a fratura

Por Yuri Scardini

Desde 2009 a forte polarização entre  Audifax Barcelos (Rede) e Sérgio Vidigal (PDT), vem impondo um ao outro, grande dificuldade política para guiar a prefeitura. Especialmente neste último mandato de Audifax concluído em 2016, a tal polarização ficou escancarada. Principalmente na Câmara de Vereadores e na Federação das Associações de Moradores da Serra, onde grupos ligados aos dois políticos vinham se digladiando.

Com a proximidade das últimas eleições municipais, o que essa cidade viu foi a separação total dos grupos políticos e lideranças, desde as comunitárias até as empresariais.  Se alguma pessoa não era do grupo de Audifax, automaticamente era visto como membro do grupo de Vidigal, e vice versa. Sem meio termo, sem ponderação e digna de um radicalismo irracional, a cidade ficou partida ao meio.

A disputa política que antes era percebida com mais força nos bastidores, tornou-se pública e notória. Durante a campanha, tirando o período de internação de Audifax, seguiu-se um processo conturbado, violento e com clima de tensão até o último minuto, quando Audifax se sagrou prefeito novamente.

Depois, seguiu-se o “terceiro turno”. O último suspiro da briga era a disputa pelo comando da Câmara da Serra. Motivo de muita articulação, a eleição da Mesa Diretora só foi resolvida no dia e de uma maneira, no mínimo, traumática. Já as comissões só foram resolvidas alguns dias depois. Resultado: a vereadora Neidia Maura (PSD) e o grupo de Audifax se sagraram vencedores.

Alguns vereadores que caminhavam com Vidigal e teciam duras críticas ao prefeito, parecem já terem se rendido. É o caso de Basílio da Saúde (Pros), que deixou a poeira baixar e agora ensaia alinhamento com o Executivo. Além de Basílio, vários outros que outrora foram membros do grupo de oposição, o chamado ‘Grupo dos 12’, já fizeram a migração.  Esse fato foi comprovado pela aprovação das várias pautas bomba que Audifax aprovou na Câmara, na última sexta-feira (13).

Agora, ao que tudo indica, o imbróglio que envolve a eleição da FAMS deve ser resolvida nas próximas semanas com uma forte inclinação para o grupo do prefeito Audifax. Já o PDT vive uma debandada de lideranças, que devem ficar sufocados e descer o tom contra a atual administração. Depois de alguns anos, um grupo político terá hegemonia na cidade.

Hegemonia que traz esperança

Hegemonia no que tange a política, é claro, pois nem tudo são rosas. Apesar da conjuntura política caminhar para uma agenda menos tensa, a realidade da Serra é cruel. O prefeito deve enfrentar dias de muita dificuldade no que se refere à superação da crise; ajustes fiscais; redução de custos, cargos, recursos, arrecadação; competição com outras cidades; demandas sociais gigantescas; e vários outros desafios que a cidade deve passar.

Foram muitas coisas prometidas a população durante a eleição e certamente haverá cobranças na mesma proporção. Desde à população mais carente até os empresários e investidores, todos esperam melhorias. E desejam que a Serra volte a crescer como nos últimos anos. Agora, com as questões políticas se resolvendo, a retomada do crescimento econômico é um dos grandes desafios do prefeito Audifax, assim como a questão fiscal e manutenção dos serviços a população.

Outros fatores de conjuntura estadual impõem mais preocupações. Ao norte do ES tem a Sudene, que torna a competição por atração de investimentos desleal. Ao sul, se saírem os projetos da ferrovia e portos tão desejados pelo Governo do ES e pelo movimento empresarial capixaba, haverá outro polo de atração a competir com a Serra.

Por isto a busca por uma nova ancora de desenvolvimento para o município parece inevitável. Seja um porto em Carapebus ou um Aeroporto Internacional de Cargas entre Jacaraípe e Nova Almeida, a verdade é que a Serra está batendo no teto sobre a capacidade de “crescimento natural”. Agora, com uma unidade hegemônica de poder, Audifax deverá enfrentar uma opinião pública sedenta por melhorias e mirar nas dificuldades da evolução econômica na cidade.  

Sem saber para onde ir

O município viu parar de crescer a receita que vinha tendo saltos significativos ano a ano, enquanto a despesa seguiu crescendo.

Eci Scardini

Desde o momento em que foi deflagrada a crise financeira internacional, em 2008, e dos primeiros sinais do declínio econômico do país nos anos subsequentes, a Serra está sem rumo, sem saber para que lado caminhar. Nos primeiros anos da crise no Brasil, que ainda era só econômica, não tinha ainda deflagrado o terremoto político.

 Até então, só estava ficando perceptível a redução da atividade econômica em alguns setores: importação, exportação, início da retração da construção civil, menos consumo mundial de aço, entre outros setores.

Mas como o país vinha embalado por um crescimento extraordinário, no geral, a nova realidade não foi sentida de imediato pela população. O município, que na época era administrado por Sérgio Vidigal (PDT), viu parar de crescer a receita que vinha tendo saltos significativos ano a ano.

O peso da crise no poder público foi sentido gradativamente: obras sendo tocadas a passos de tartaruga, enquanto outras foram literalmente sendo paralisadas, aumento da dívida municipal, desorganização administrativa e por aí a fora.

Saiu Vidigal no final de 2012 e entrou Audifax no início de 2013 e o cenário foi só piorando, piorando, piorando…

A receita não reagiu, tanto que a arrecadação municipal de 2016, de cerca de R$ 1,1 bilhão, se equipara à de 2008, porém, com uma população de praticamente 100 mil moradores a mais, equivalentes a uma Viana. Sem contar a desvalorização provocada pela inflação.

 Na outra ponta, a despesa não parou de crescer. A expansão da malha urbana exige novos investimentos em serviços prestados a população. Pessoal, saúde e educação compõem o carro chefe das despesas, e todos os três têm leis protecionistas. Há leis que não permitem a perda salarial e a Constituição Federal garante percentual mínimo de aplicação em saúde e educação.

A expansão demográfica pressiona por mais escolas, mais creches, mais unidades de saúde, por regularização fundiária, habitação popular, políticas de segurança, limpeza urbana. A imigração de pessoas que estão na linha da pobreza leva a uma ocupação irregular do solo, que exige do município investimentos em assistência social, expande áreas sem cobertura de saneamento básico, sem iluminação pública, sem sistema viário adequado, além de aumentar a degradação ambiental.

Ou muda ou o colapso virá

Com o advento da crise política nacional, no segundo semestre de 2014, a situação só piorou. União, estados e municípios estão engessados, só apagando fogo e como diz o ditado popular: vendendo almoço para comprar a janta.

No caso específico da Serra, Vidigal e Audifax surfaram na onda do crescimento do país, dos anos de 1997 a 2009. Foram dois mandatos do primeiro e um do segundo, onde se fez vista grossa para muitos fatores importantes. Não foram (como ainda não é Audifax) implacáveis com a ocupação irregular, não foram arrojados na aplicação de políticas de atração de novos investimentos privados e, principalmente Audifax, deixou escorrer por entre os dedos, empresas importantes sediadas na Serra.

O poder público local deu muita ênfase ao mercado imobiliário e o setor produtivo ficou entregue à própria sorte. Enquanto isso, os vizinhos se articularam e passaram a competir fortemente com a Serra a atração de importantes plantas industriais e logísticas, principalmente o norte do Estado, que conta com significativos benefícios fiscais, tributários e de crédito propiciados pela Sudene.

Perdemos a Ambev, Petrobras, Escelsa entre outras menores. Deixamos de ter o centro de distribuição da BMW no Brasil, indústria de cosmético e algumas mais. E estamos à beira de perder outras empresas aqui instaladas.

Se não houver um olhar mais aguçado, uma política mais arrojada, mais criatividade, mais informações e uma dedicação pessoal do prefeito, a Serra entrará em colapso em pouco tempo. O que vai ficar na memória do povo dessa cidade, não são as boas lembranças da 1ª gestão e sim as más lembranças das últimas.

Eles trabalham e confiam

Kleber Galveas

Será que se pretende “botar areia” nas locomotivas da economia nacional: SP, RJ e MG? . Esses Estados impulsionam o Brasil. Enviam para o Governo Federal recursos muitas vezes superiores aos que dele recebem. O ES não consegue que o Governo Federal invista aqui nem 10% do que enviamos para ele. Já os Estados do Norte e do Nordeste do país contribuem modestamente para o bolo da União, mas resgatam fatias muitas vezes superiores às suas contribuições.

Se o povo punido pelo desgoverno que ocorreu resolver reagir pacificamente, o capixaba apoiará. O ES é, também, vítima da repartição política do Tesouro Nacional.

Tímido, sem expediente (ação), visto com desconfiança por seu provincianismo, higiene precária (saneamento/poluição), saúde debilitada, personalidade pública distante da sua identidade, valores intrínsecos desprezados e a vocação esquecida, o ES nos preocupa. Sem imaginação, contando com parcos recursos, o governo investe na aparência e procura mascarar a pobreza e inação glorificando a hipotética independência, se vangloriando por não dever a ninguém, ter o barraco arrumado e servidores fiéis. Esqueceu que detonando o ambiente, inviabiliza a nossa legítima vocação para o terceiro setor da Economia.

Dívida, com responsabilidade, é um privilégio. É ter a confiança dos credores, ter crédito na praça e poder investir. É conseguir manter as atividades e progredir. SP, BH e RJ passaram por grandes transformações em tempo curto. Infelizmente sabemos que muito do capital para esses investimentos foi desviado, administrado sem o devido cuidado, e a roubalheira foi à mão grande.

Corrigir distorções populistas, investigar para recuperar a grana desviada, apontar os ladrões e os gestores irresponsáveis, aplicar punições exemplares aos verdadeiros culpados é o correto. Aliviar o povo desses estados, lembrando a contribuição que oferecem ao bolo nacional e a disposição que têm para o trabalho e liderança é agir com bom senso, tolerância, respeito e justiça. Sejamos solidários.

Kleber Galvêas é pintor e ativista cultural e ambiental

Dá turismo entre Bicanga e Carapebus

Bruno Lyra

As praias da Serra são lindas. Poucas são profundas e com ondas fortes, como as famosas e frequentadíssimas Itapuã e Itaparica em Vila Velha.  Aqui as mais procuradas são as praias de Jacaraípe e de Manguinhos.  Sem dúvida, balneários bacanas.

Mas há outros excelentes locais para banho entre Bicanga, Balneário Carapebus e Praia de Carapebus, que representam a porção sul dos 24 km de litoral da Serra. É uma região pouco frequentada, não obstante a presença de algumas colônias de férias, quiosques e restaurantes.

Ali há um potencial para turismo de veraneio reprimido. Mas a falta de estrutura dos bairros, que cresceram como zona periférica, habitadas pelos trabalhadores temporários ou não do Complexo Industrial de Tubarão, e da própria orla, são fatores que inibem o crescimento do turismo local.

Se o município, em parceria com setores empresariais que podem colher frutos com a qualificação e aumento da presença de visitantes na região, se engajarem na melhoria da orla que hoje é péssima, a cidade poderá colher bons frutos. 

Audifax deu as cartas

Por Eci Scardini

Desde 1983, quando o vereador Hermínio Fraga (PMDB) foi eleito presidente, até hoje foram 18 eleições de Mesa Diretora da Câmara. Mas em nenhuma delas se viu tanta anarquia, desordem, desrespeito, tumulto, quebra de regras, de protocolo, irregularidades e agressões físicas como a do último domingo (01).

Uma vergonha para a Serra, assistida online por quem quisesse vê-la em qualquer parte do planeta. Justamente em um momento em que há no país inteiro um clamor por práticas políticas mais transparentes, éticas, respeitosas e livres de vícios e manipulações.

A sessão começou e foi bem até o fim da posse dos 23 vereadores. O que se notou de errado e quem em nenhuma outra sessão de posse havia acontecido, foi a presença do prefeito Audifax Barcelos (Rede) e sua vice Márcia Lamas (PSB) no plenário. O correto seria que ambos adentrassem no plenário somente depois de eleita a Mesa Diretora, mesmo assim acompanhados por dois vereadores.

Desta vez não. Audifax e Márcia estavam sentados desde o início nas primeiras cadeiras destinadas às autoridades. Exceto por essa falha, o vereador Adriano Galinhão (PTC) – o mais votado nas urnas – comandou bem a primeira fase de instalação da nova legislatura e a posse.

A partir daí, o correto seria ele suspender a sessão, pedir o esvaziamento do plenário, inclusive a retirada do prefeito e vice e dar prazo para a apresentação de chapas concorrentes. E só reabrir a sessão após o prazo estabelecido, com o plenário composto apenas pelos vereadores.

A anarquia começou a partir daí. Galinhão não encerrou a sessão e começou a votação com mais de 200 pessoas no plenário, inclusive o prefeito e a vice. Novo e sem experiência, Galinhão foi manipulado por vereadores mais ‘cascudos’ que compõem a tropa de choque de Audifax. Empolgados com adesão de Neidia Pimentel (PSD) ao grupo, foi montada uma estratégia de boicotar e não dar tempo do grupo da oposição nem pensar direito.

O que chamou a atenção foi a desenvoltura do prefeito no plenário e nas dependências da Câmara. Audifax fez ali papel de vereador, de líder do governo e também de prefeito. Fez tudo o que nenhum outro prefeito fez desde 1983. Deu ordens, articulou, conversou, orientou.

Penetras a torto e a direito

A eleição foi tão avacalhada que, de tanta gente no plenário, tinha momento que ficava difícil distinguir vereador de não vereador. Onde deveria estar só os empossados e a imprensa, tinha cerca de 200 pessoas, entre parentes de vereadores, convidados, autoridades e muitos militantes políticos. A maioria aliados de Audifax.

Na mesa de comando dos trabalhos, que o regimento interno determina que em sessão de posse deva estar somente o presidente interino e o secretário adoc, havia mais de 15 pessoas. Todas dando pitacos a Galinhão, que não suportou a pressão e deixou o vereador Xambinho (Rede) conduzir os trabalhos. No plenário, os vereadores tinham imensa dificuldade em sair e retornar aos seus assentos em virtude da grande quantidade de pessoas.

Com o tumulto generalizado foram inevitáveis as brigas. Um filho do vereador Nacib, revoltado, jogou o livro de posse no vereador Galinhão; uma filha da vereadora Cleuza saiu nos tapas com uma militante simpática a Audifax; o vereador Basílio da Saúde (Pros) não se conteve, esculachou  Neidia e, por pouco, não lhe atirou um extintor de incêndio. O vereador Miguel da Policlínica (PTC), por uma cinco vezes, ameaçou sair no tapa com vereadores da oposição.

Tudo isso em meio aos atropelos regimentais que o processo sofreu, como fechar o protocolo com antecedência, fazer duas chamadas de votação, impugnar a chapa um pela ausência do 1º secretário, sendo que há substituto legal na chapa, entre outros itens que podem ser enumerados.

A cidade foi diminuída

Ainda sobre a confusa e polêmica sessão da Câmara que elegeu a nova Mesa Diretora da casa para o biênio 2017 e 2018, a presença de Policiais Militares portando fuzis, escopetas e pistolas foram deprimentes. Por pouco os presentes não se sentiram como se estivessem entre uma briga de gangues em um morro do Rio de Janeiro.

O tom burlesco da cena dava a impressão que se estava numa assembleia de associação de moradores daqueles bairros ou condomínios mais briguentos, e não na sede do parlamento da maior e mais industrializada cidade do Estado.

Quanto à mudança de lado da vereadora Neidia, é um caso que o tempo é quem vai dizer se ela fez certo ou errado. Ela criou a imagem de uma mulher de briga, de pulso firme, uma guerreira. Agora ela está com a pecha de uma mulher traidora. Concordem ou não, Neidia tem suas razões para fazer o que fez. Ela tem um longo caminho para se desfazer dessa imagem negativa que criou.

Quanto ao prefeito Audifax, conseguiu o seu objetivo: venceu. Mas foi uma vitória feia, que não dá nem para comemorar. Desse jeito ele só consegue chegar ao Palácio Anchieta para audiência com o governador e não para sentar na principal cadeira do poder executivo estadual. Se não mudar o rumo, nem a marqueteira Jane Mary dá jeito.

Um horizonte menos violento

Por Thiago Andrade

No Brasil, os homicídios cresceram de maneira contínua de 1980 a 2003. O risco de morte por homicídio no país, em 1980, era de 14 por 100 mil habitantes, atingindo um pico de 28,9 em 2003. No Espírito Santo, os índices eram igualmente alarmantes e foi nesse cenário que o município de Serra, em 2000, figurou como o mais violento no ranking das cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes.

A Serra ainda ocupa a ingrata liderança de homicídios no ES, mas com uma sensível redução com relação aos anos anteriores. De acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública (SESP), em 2012, 2013 e 2014, de janeiro/dezembro, o município registrou, de forma idêntica, 344 homicídios, em cada ano. Em 2015 houve pequena redução, foram 320 homicídios. Em 2016 a Serra totalizou 267 homicídios, ou seja, 53 assassinatos a menos do que 2015, representando 17% de recuo.

Não obstante a redução, em comparação com alguns municípios que integram a Grande Vitória, a Serra ainda apresenta números bem superiores:
– Vitória computou 52 homicídios, contra 74 assassinatos no ano anterior, representando 30% de redução.

– Vila Velha fechou o ano de 2016 com 155 homicídios, sendo que em 2015, registrou 174 óbitos, representando 11% de redução.
– Cariacica registrou 133 homicídios. Em 2015, fechou o ano com 175, tendo 24% de redução.

A Serra registrou 17% de redução nos números de homicídio, são 53 vidas preservadas, em comparação com o mesmo período do ano de 2015.
Destacamos o engajamento das polícias Militar e Civil na Serra com relação à prevenção dos crimes de homicídio, bem como a repressão, culminando com a prisão e responsabilização criminal dos autores desses crimes violentos e intencionais.

Estudos apontam que há uma tendência de redução nas taxas de homicídio para os municípios que possuem estrutura para atuar na área de segurança pública, envolvendo a criação de guardas municipais, secretarias municipais e conselhos municipais de segurança pública.

É sabido de todos que o município serrano promoveu recentemente concurso para Agentes da Guarda Municipal, estando na iminência de fortalecer o combate à criminalidade.

Entendemos que a sociedade serrana almeja adoção de políticas de prevenção efetivas, a continuidade da atuação das polícias e atenção aos grupos sociais vulneráveis.

Thiago Andrade é professor universitário mestre em segurança pública

Esforço louvável e preço alto

Eci Scardini

É louvável o esforço que o prefeito Audifax Barcelos (Rede) faz para conter gastos e assim garantir o pagamento de salários dos servidores em dia. Afinal, entre efetivos, comissionados, temporários e terceirizados é possível que passem dos 15 mi; são muitas famílias que dependem diretamente dos salários para pagarem suas contas e colocarem comida dentro de casa.

Depois de alterar o horário de expediente dos setores administrativos da Prefeitura, que passou a funcionar de 12 às 18 horas, agora foi baixado um ‘decretão’ cortando na própria carne. Nada mais de shows, diárias, passagens aéreas, aquisição de novos equipamentos; redução dos gastos com telefone, água, energia, material de limpeza, de expediente, entre uma série de outras medidas drásticas para que não aumente o desequilíbrio orçamentário do Município e não entre em desacordo com a lei complementar 110/2000, que é a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Exceto as áreas de saúde e educação, que tem maior proteção constitucional, o resultado negativo desse arrocho começa a ser sentido, e se acentuará mais ainda com o decorrer do tempo. Já falta papel ofício (Chamex) para a impressão de licenças e até de boletos para pagamentos de taxas. Provavelmente, daqui a pouco será o cafezinho que estará escasso e quem sabe, papel higiênico.

O prefeito anunciou em novembro que cortaria 200 cargos comissionados, mas até a semana passada não passava de 50. Mesmo assim, os 200 anunciados não serão suficientes e já se fala internamente em 300. É um drama, pois além de paralisar setores importantes da administração, esses cortes tratam um problema político sério para Audifax: a maioria desses cortes atingirão pessoas indicadas por vereadores que dão sustentação política ao prefeito na Câmara.

Se a relação executivo x legislativo já anda às turvas, a tendência é de piorar com esses cortes e com a não nomeação de novos comissionados para atender aos vereadores e partidos que chegam.           

Falta de diálogo espanta investimentos

            Apesar de todo o esforço do prefeito Audifax para garantir o funcionamento da máquina administrativa, ele padece de uma carência: não sabe lidar e não tem paciência para ouvir e tratar com os setores produtivos da cidade e ainda, dependendo do público, dizer que governa para os pobres. Mas não pode esquecer que quem paga a conta é o ‘rico’, leia-se: setor produtivo.

Nos últimos as queixas empresariais se tornaram recorrentes e a Serra pegou a fama de que na cidade tudo é difícil: licenciamentos, aprovações de projetos, excesso de burocracia, excesso de fiscalização, falta de diálogo com o chefe do executivo, entre outras tantas reclamações.

O resultado disso é que a Serra não vem mais atraindo indústrias e plantas logísticas expressivas. E já perdeu algumas e ainda está na iminência de perder outras para o norte do ES, que tem benefícios da Sudene.

             Enquanto perde expressivas plantas empresarias, a cidade ganha dezenas de lojas populares. Basta circular pelas avenidas Central (Laranjeiras), Getúlio Vargas (Serra-Sede), Brasília (Porto Canoa) e Abdo Saad (Jacaraípe) para ver a proliferação dessas lojas, que dão a falsa sensação de crescimento da cidade.

A Serra está perdendo o que levou décadas para conquistar. E não recebe praticamente mais nada significativo. O pouco que está para vir se arrasta há anos e ainda deve demorar.

             João Baptista da Motta, quando prefeito da Serra, ao ouvir dizer que uma empresa queria vir para o Estado pegava um avião e ia à sede da mesma, fazendo todo o possível para trazê-la para a cidade. Quando ouvia falar que uma empresa queria ir embora da Serra, ia pessoalmente nela, várias vezes se preciso fosse, para impedir que isso acontecesse.

Vereador pula no escuro

 

Eci Scardini 

O resultado da eleição provou que para se reeleger vereador o parlamentar não tem que necessariamente estar debaixo das asas do prefeito não; dependendo das circunstâncias é melhor estar no campo da oposição, onde as cobranças são menores. A menos, é claro, que o prefeito coloque a mão na cabeça e libere a máquina para trabalhar a favor de um ou outro nome e o eleja. Inclusive aqui na Serra há suspeitas que pairam no ar sobre alguns nomes reeleitos na coligações do prefeito.

Mesmo assim, no frigir dos ovos, o comportamento do vereador é muito mais importante na sua reeleição do que estar contra ou a favor do prefeito.

Dos atuais 23 vereadores, 15 passaram os seus quatro anos na base de apoio ao prefeito Audifax; um oscilava entre oposição e situação, que é Tio Paulinho (PV), e sete se postaram na oposição, principalmente nos dois últimos anos.

Desses 23 vereadores, 21 disputaram a reeleição e só nove foram reeleitos. Cinco nas coligações que apoiaram Audifax, três de coligações que apoiaram Vidigal (PDT) e um pelo PT, sigla com relativa independência nessa polarização.

 Pelo lado do prefeito só foi eleito quem faz parte do seu núcleo duro: Miguel, Moreira, Xambinho, Guto e Caldeira. Quem ficou colado na membrana que protege esse núcleo duro perdeu: Jorjão, José Raimundo, Toninho, Auredir, Marcos Tongo, Cesar Nunes, Tio Paulinho e Gilmar, que disputou pelo PT, mas dava sustentação política ao prefeito na Câmara.

Portanto, se algum dos 12 vereadores que hoje compõe o bloco que busca ganhar a Mesa Diretora da Câmara pensar em pular o muro e ir para os braços do prefeito, deve tomar muito cuidado, pois pode ser um salto no escuro.

Quem fizer isso vai ser escanteado pelos dois lados, pois nunca fará parte do núcleo duro, nunca terá secretaria como tem Guto e Moreira e nem as portas de todas as secretarias escancaradas como tem Xambinho, Caldeira e Miguel. Se não souber se posicionar, vai virar um novo Jorjão, que mesmo com mandato teve somente 175 votos na sua tentativa de reeleição.

A mulher que lutou pela casa

Por outro lado, há de se destacar o pulso firme da presidente Neidia, que soube enfrentar a ânsia de poder dos aliados do prefeito dentro da Câmara. Pulso que também demonstraram os vereadores que não se curvaram ao canto da sereia do executivo e ficaram ao lado da presidenta até o fim. O resultado é que a maioria foi reeleita, além da própria Neidia: Nacib, Basílio e Aécio. Davi Duarte e Antônio Boy não foram reeleitos, mas tiveram votações expressivas, sendo prejudicados pela grande disputa na chapa do PDT. Somente Aldair é que ficou mais para trás.

Daqueles que apoiaram a sua eleição para a presidência e mudaram de lado, foram todos derrotados e alguns de forma vexatória. Neidia soube proteger o parlamento, soube proteger o vereador que quis exercer o seu papel de parlamentar, não expos a Câmara a escândalos e brigou com galhardia quando quiseram lhe puxar o tapete.

Neidia não se preocupou em agradar ou desagradar o executivo, soube ser presidente da Câmara. O executivo tenta desqualifica-la e induzir a opinião pública de que a atual Mesa Diretora da Câmara atrapalha o Município. Não é verdade. O que atrapalha o município é um secretariado do executivo incompetente, inoperante, sem conhecimento das suas atribuições e que não sabe exercer o papel de liderança.

Neidia também abriu a Câmara para a participação popular e fez daquele espaço um ponto de apoio para segmentos da sociedade, que passaram a usar as dependências do prédio para expor e levar suas ideias e promover debates. Foi assim com a OAB da Serra, com os artistas plásticos, com escritores, com produtores de artesanatos, com estudantes da rede pública, com portadores de necessidades especiais, com ambientalistas e com tantos outros setores que sempre encontraram as portas da Câmara abertas.

A resistência a Audifax na Câmara

Eci Scardini

O prefeito Audifax Barcelos (Rede) retornou para o hospital na quarta-feira para um procedimento cirúrgico, que é voltar com o intestino grosso para o seu local e assim restabelecer por completo sua saúde. A previsão, segundo sua assessoria, é a que, entre a internação e recuperação, o prefeito precise de sete a dez dias de afastamento.

Esse curto período em que o prefeito estará ‘fora do ar’ não o impedirá de acompanhar o desenrolar da escolha da futura Mesa Diretora da Câmara. Ele estará em plena faculdade mental, só vai estar limitado na sua mobilidade, não vai poder ficar andando e se movimentando com tanta frequência. Portanto, poderá estar tratando do assunto normalmente.

Entretanto o tempo tem conspirado contra o prefeito e seu grupo de vereadores, uma vez que 12 dos futuros vereadores se fecharam de tal forma que nenhum dos potenciais candidatos a presidente da Câmara apoiados pelo prefeito têm conseguido furar o bloqueio para puxar um dos 12 e inverter a vantagem.

Mas por que o prefeito Audifax e o conjunto de vereadores que o apoiam têm encontrado tanta resistência em furar esse bloqueio e eleger a Mesa Diretora? Primeiro, o comportamento do próprio Audifax em relação à Câmara. É notória a pouca habilidade do prefeito para ‘seduzir’ seus oponentes. E segundo, as feridas ainda muito expostas da briga com o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT).

O grau de confiança dos 12 futuros vereadores (quatro reeleitos e oito eleitos pela primeira vez) no prefeito e nos cinco vereadores reeleitos pelo lado da situação é muito baixo. As feridas causadas pelas várias tentativas de anular a eleição da atual Mesa estão abertas, tem muita dor, muito ressentimento. As várias tentativas de ‘puxar o tapete’ de Neidia atingiram também outros três reeleitos: Nacib Hadad (PDT), Basílio (Pros) e Aécio Leite (PT), que fazem parte da atual Mesa Diretora da Câmara.

Quem será a alma penada?

Praticamente todos os oitos vereadores que compõem o grupo dos 12 acompanharam a exaustiva batalha empreendida pela atual Mesa para manter o resultado de uma eleição ganha na raça e com toda lisura. Adilson (PSL), Quélcia (PSC), Geraldinho PC (PDT), Pastor Ailton (PSC), Welington Alemão (DEM), Cleusa Paixão (PMN) e Fábio Duarte (PDT) acompanharam tudo de perto e viram as tentativas de massacrar os componentes da Mesa. Somente Raposão (PSDB) é que se mantinha mais distante, mas também via o que estava acontecendo.

 Tudo acontecia com a complacência do prefeito Audifax. Os quatro reeleitos, como também Aldair Xavier (PDT) e Boy do INSS (PDT), que não foram reeleitos, reclamam que em nenhum momento Audifax atuou como um verdadeiro líder para apaziguar a Câmara. Encarregou essa tarefa ao seu líder na casa, o vereador Luiz Carlos Moreira (PMDB), que não teve sucesso.

Os vereadores reclamam também do comportamento do prefeito, que longe dos holofotes da imprensa os critica e até os provoca. Mas que diante dos jornalistas, sobretudo das redes Tribuna e Gazeta, se faz de vítima, pregando a paz e a união.

Faltam 14 dias para Audifax e os 11 futuros vereadores reverterem um quadro desfavorável e vencerem a batalha pelo comando da Câmara.

Toda a Serra acompanha diariamente essa ‘novela’. Não tem ninguém bobo para achar que alguém vai sair do grupo dos 12 por questões éticas, orgânicas ou gratidão. Qualquer um que pular do galho não vai mais ter a confiança de nenhum dos dois lados; vai vagar pelos corredores da Câmara como uma alma penada, sem ser notado, admirado ou respeitado, até terminar os quatro anos e voltar para casa desolado.

Mais 30 km para bebês da Serra lutarem pela vida

Por Yuri Scardini

Presente de grego para a Serra

O Governo de Paulo Hartung (PMDB) passou o trator sobre o debate saudável, e esta semana no punho de ferro, anunciou a transferência da UTI Neonatal do Hospital Dório Silva para o Hospital e Maternidade Infantil de Vila Velha (Himaba).

Um ato friamente planejado e que pegou todos da cidade no susto, pois em 2015, o Estado havia desistido da medida após a repercussão negativa da mesma, tão logo foi anunciada.  E o pior: desta vez, a gestão Hartung pretende agir à lá Congresso Nacional, na calada da noite, promovendo essa transferência na madrugada da quinta-feira (08), dia do aniversário da cidade. Por ironia ou não, o Governo do Estado quer dar um presente de grego para a Serra.

O anúncio causou reações entre sindicatos voltados a área da saúde; movimentos sociais; lideranças populares e políticas da Serra, além dos próprios funcionários que trabalham na UTI Neonatal. Para isso, nesta quarta feira (07), o conselho gestor do Dório Silva e várias lideranças e organizações da cidade decidiram se reunir e brigar pela permanência dos 26 leitos da UTIN na cidade.

Até agora o Estado não apresentou argumentos convincentes que justifiquem a transferência do serviço para mais de 30 km de distância. Ainda mais, levando em consideração que a cidade é a campeã de número de nascimentos de alto risco. Agora, é preciso questionar ao Estado, se as autoridades que promovem esse ato unilateral irão assumir possíveis casos de óbito de recém-nascidos enfermos durante o transporte por mais de 30 km da Serra para Vila Velha.

É claro que tem que se debater isso, visto que recém-nascidos enfermos são extremamente vulneráveis. Segundo médicos ouvidos pela coluna, tais recém-nascidos têm altas chances de se desestabilizarem, ainda mais se estiverem entubados, correndo o risco de sofrer hemorragias, sequelas graves, até morrer durante o procedimento. Inclusive os próprios médicos do Dório afirmam que no Estado não há pediatras experientes no transporte de recém-nascidos de alto risco.

Falta de respeito com a maior cidade do ES

O entendimento por parte de profissionais da saúde presentes na reunião da última quarta-feira é a de que o hospital Jayme Santos não conseguirá suprir a demanda, caso a transferência ocorra. Disseram inclusive, que o Dório Silva é um hospital de referência no tratamento de recém-nascidos de alto risco.

A bem da verdade, o nosso Dório já salvou muitos bebês à beira da morte. E todo esse reboliço versa sobre a incompatibilidade da ação do Estado, que priva uma população altamente depende de tais serviços.

Isso prova que não está havendo um mínimo de respeito com a cidade mais populosa do Espírito Santo e que tanto contribui financeiramente com ele. Apesar do discurso governista de que valoriza a Serra, o município vive à duras penas. Haja vista a redução de repasses e convênios do estado nos últimos anos. E o que dizer das obras paradas como reforma do colégio Aristóbulo, reforma da Norte x Sul, Contorno de Jacaraípe ou das que nem começaram como o Faça Fácil e o Contorno do Mestre Álvaro?  

Outro ponto que circula nos bastidor, ainda em voz bem baixinha, são os possíveis interesses políticos por trás dessa brusca movimentação. Segundo algumas lideranças envolvidas na luta pela permanência, essa transferência seria uma demanda do prefeito eleito de Vila Velha, Max Filho (PSDB) por mais vagas de leitos infantis, e estariam envolvidos nessas articulações o médico e deputado estadual Hércules da Silveira (PMDB) e o vice-governador César Colnago, tucano como Max. Porém, não há confirmação sobre tais informações, podendo ser apenas especulações.

Verdade é que tem caroço nesse angu, pois mexer com um assunto tão melindroso desse sob os fracos argumentos que foram colocados, não parece ser uma atitude inteligente. A menos que haja interesses ainda não conhecidos por trás.    

Portanto, a luta pela permanência da UTIN na nossa cidade é legítima e só a partir do enfrentamento às ações como estas, tomadas pelo Estado, é que nossos bebês de alto risco poderão ter mais chance à vida.

 

 

 

Movimento Ambiental da Serra

Por Carlos Humberto de Oliveira

O desenfreado desenvolvimento econômico sem qualquer compromisso com a questão ambiental e social no município da Serra, despertou em um o grupo de cidadãos, a necessidade de provocar a sociedade para a tomada de atitude de exigir a participação da mesma nos processos de intervenções que tenham impacto ambiental. Este grupo convidou outros e assim foi criado o Movimento Ambiental da Serra – Mova-Se.

Neste período, o Movimento Ambiental da Serra participou de várias ações em defesa do exercício pleno da cidadania em nossa cidade: Caminhada ecológica na APA Mestre Álvaro; reuniões nas comunidades para identificar e discutir demandas localizadas; apoio à derrubada do projeto de alteração do uso do solo na região da APA do Mestre Álvaro; realização do Seminário pela Sustentabilidade, onde se discutiu a proposta do Programa Cidades Sustentáveis; acompanhamento da CPI da Cesan; realização da Audiência Pública sobre a Lagoa Juara; encontro como o Ministério Público para apresentação de relato do caótico quadro ambiental na Serra, especialmente com relação à água e saneamento; e agora estamos realizando palestras nas comunidades sobre desenvolvimento sustentável com base na agenda 2030 da ONU, os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

O Movimento Ambiental da Serra defende uma gestão pública sustentável no município como um todo. Esta gestão deve considerar todas as implicações do presente para o futuro do município, seja na educação, seja na saúde, seja nas construções, nos recursos hídricos, na fauna e na flora e, principalmente, na vida das pessoas.

E isto não se faz sem a efetiva participação da sociedade civil organizada, por mais “técnico” que seja o gestor público. Defendemos uma Serra sustentável e equilibrada, o que só é possível se houver a integração das áreas econômica, social e ambiental nos processos internos da gestão pública municipal, através do gestor e do secretariado. Qualquer prática fora disto, é enganação e nefasta para o futuro de nossa cidade.

Carlos Humberto de Oliveira
Advogado ambientalista e membro do Movimento Ambiental da Serra

A inspiração que vem da dor

Por Bruno Lyra

Nada pode reparar a perda das vidas das 71 pessoas que morreram no desastre aéreo de Medellín na última terça- feira (29), dentre elas tripulantes, jornalistas, dirigentes esportivos, comissão técnica e jogadores da Chapecoense. Mas a comoção mundial e a solidariedade de clubes e torcedores de outras equipes que se sucederam a tragédia é algo digno de registro.

Isto porque, o futebol tornou-se um lugar de crescente intolerância e violência. A ponto de muitos deixarem de freqüentar os estádios por conta das brigas, sobretudo entre torcidas organizadas. Claro que nem todas as torcidas organizadas apregoam e praticam a violência.

Até no pobre futebol capixaba os exemplos de intolerância se multiplicam. Mesmo em jogos com poucas centenas de torcedores, as brigas não são raras. Num jogo entre Desportiva e Rio Branco, o nosso maior clássico, as torcidas têm de ser bem separadas e vigiadas pela PM.

E para essas duas torcidas virem à cidade assistir um jogo de seu time contra o Serra no Robertão, um sufoco. A mesma coisa vale para o torcedor do tricolor serrano que vai assistir seu clube no Salvador Costa (Vitória) ou no Kléber Andrade e no Engenheiro Araripe (ambos em Cariacica).

Que o sentimento de humanidade e respeito à dor da Chapecoense, demonstrado por clubes e torcidas, possa ‘contaminar’ o mundo do futebol. E não ser somente uma onda passageira neste mundo acelerado e cheio de efemeridades. 

O desejo alto de Audifax

O mote para a candidatura de Audifax é a necessidade que o Rede tem, de ter candidato a governador em todos os estados.

Eci Scardini

Mal o prefeito Audifax Barcelos (Rede) saiu das urnas eleito para o terceiro mandato, e já se lançou pré-candidato a governador do Estado, em eleição a ser realizada em outubro de 2018, daqui a dois anos. A iniciativa causou euforia entre seus colaboradores, perplexidade em boa parte do eleitorado, que atendeu o seu pedido e lhe confiou mais quatro anos de mandato. E pegou de surpresa o mercado político.

Mas, uma iniciativa como essa não sai do nada e também não é fruto da cabeça de uma única pessoa também não. Há nos bastidores duas versões para o fato, que ganhou as páginas dos principais jornais da capital e até hoje, rende notas ali e acola nos editorias dos jornais A Gazeta e A Tribuna.

O mote para a candidatura de Audifax é a necessidade que o Rede tem, de ter candidato a governador em todos os estados e Barcelos, que administra a maior cidade entre os prefeitos redistas, estaria gabaritado a pleitear o cargo.

Uma versão aponta que a autoria da sugestão ao prefeito de se lançar pré-candidato ao Governo, partiu do próprio ocupante da principal cadeira do Anchieta, que é o governador Paulo Hartung (PMDB). Segundo uma fonte com acesso ao governador, a intenção é diminuir as possibilidades de Renato Casagrande (PSB) retornar ao governo, na eleição de 2018.

Com Audifax candidato, Casagrande perderia um importante ‘cabo eleitoral’ e, mesmo o PSB assumindo o comando do Executivo local, o eleitorado aqui ficaria dividido entre o próprio Audifax, Casagrande e Hartung ou quem ele indicar.

Uma outra fonte, com acesso aos ninhos socialistas e redistas, enfatiza que a ideia surgiu depois de uma longa conversa que envolveu o próprio Audifax, Casagrande e o prefeito de Vitória, Luciano Resende (PPS). A tese é de que há a necessidade de se construir outros nomes de peso para disputar o cargo de governador do Estado e também os de senador, fora do grupo de Hartung e que integre os partidos PSB, PPS e Rede, que estão unidos no plano estadual e com muitas afinidades no plano nacional.

Dever de casa na Fams e na Câmara

De acordo com a análise do interlocutor, Hartung conta com o senador Ricardo Ferraço e o vice-governador Cesar Colnago, ambos do PSDB, para formar uma competitiva chapa majoritária (governo e dois senadores), para a eleição de 2018.

O surgimento do nome de Audifax, além de tirar todos os holofotes da imprensa e as ‘metralhadoras’ de Hartung de cima de Casagrande, possibilita formar uma chapa competitiva para contrapor ao grupo do governador Paulo Hartung.

A estratégia parece ser Audifax dar esse primeiro start e voltar correndo para tomar conta da Serra, onde os problemas pipocam a todo instante. O tempo vai tomando conta de consolidar ou não à ideia, até porque 2018 ainda está longe. Uma certeza o interlocutor tem: Casagrande está disponível para ser candidato a governador, senador e até a deputado federal. Portanto, se Audifax tiver viabilidade eleitoral, pode de fato ser candidato à cadeira maior do Palácio Anchieta.

Voltando os olhos para o cenário político da Serra, muito se falou em despolarização, mas após o pleito que consagrou à reeleição do prefeito Audifax Barcelos (Rede), a cidade segue com forte disputa de poder e espaço entre audifistas e opositores ligados a Sérgio Vidigal (PDT). A eleição da Mesa diretora da Câmara de Vereadores e a eleição da Federação das Associações de Moradores da Serra, a Fams, são vistas um como termômetro para se entender o tamanho do folego que a oposição vai ter para fazer frente ao terceiro mandato do prefeito Audifax. Além de ser uma bela oportunidade de testar a capacidade política do prefeito em fazer o ‘dever de casa’ e construir um ambiente mais favorável ao seu governo na Câmara e na Fams.

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