Mestre Álvaro | Portal Tempo Novo

Serra, 22 de Abril de 2019

Portal Tempo Novo - O Portal da Serra, ES

Mestre Álvaro

por Eci Scardini

Vitória não é da Serra

Por Bruno Lyra

No último dia 3 de abril, foi publicada a resolução da Agência Nacional de Mineração (ANM) que altera a forma de distribuição dos royalties da mineração. Agora, municípios não produtores, mas que são impactados pela atividade minerária como operações portuárias com minério, poderão receber.

A princípio, é uma boa notícia para o Espírito Santo, que nessa década foi prejudicado com o fim do Fundap e com a mudança nas regras de distribuição dos royalties do petróleo, que também passaram a ser direcionados para estados não produtores.

Não será esta, porém, uma medida para atenuar a péssima imagem do setor de minério após o rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho, ambas em Minas Gerais, e justificar a manutenção do atual modelo de produção? Só o tempo dirá.

Outra reflexão é salutar para Serra e até para outras cidades da Grande Vitória impactadas pelas operações nos portos do Complexo de Tubarão. É que, a princípio, só Vitória poderá ser beneficiada pelos royalties referentes à movimentação de minério de ferro no porto, uma vez que, oficialmente, os portos operados pelas mineradoras ficam no território da capital.

Para a Serra, poderá vir um valor bem mais modesto por ter ferrovia, pela qual o produto é transportado. Se de fato os royalties referentes à movimentação de minério nos portos forem só para Vitória, será uma imensa injustiça. E tal injustiça já existe em relação à tributação ao complexo siderúrgico operado por Vale e Arcelor, em que os impostos municipais incidentes sobre as atividades nas oito usinas de pelotização da Vale e nos portos de Praia Mole e Tubarão são faturados em Vitória. E metade do complexo de fabricação de aço da Arcelor – não obstante o fato de a empresa estar em território da Serra – também é faturado em favor da capital.

Vale muito as lideranças da Serra ficarem de olho para a cidade não ser, mais uma vez, prejudicada por interesses da elite política e econômica da capital. Afinal, os acessos rodoviários e ferroviário ao complexo ficam na Serra. O pó preto e os gases siderúrgicos também assolam o morador serrano tanto quanto quem reside na capital. Além disso, há controvérsias quanto à divisão territorial entre as duas cidades e o complexo de Tubarão.

Modelo Jeremias é melhor

Por Helio Maldonado 

O “eu” de hoje não é o “eu” de ontem e nem será o “eu” do amanhã. Essa frase quer simbolizar aquilo que o filósofo grego Heráclito disse sobre a consciência: “Não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, porque a água se renova a cada instante”. Logo, podemos dizer que não existe uma ontologia existencial do “ser” do indivíduo. Em outras palavras do cotidiano: ninguém nasce bandido!

Em verdade, como diagnostica a sociologia, o indivíduo é o produto do meio em que habita. E no Brasil, país periférico, as “promessas da Modernidade” não alcançaram a maioria esmagadora da população. Temos problemas reais de educação (12 milhões de pessoas analfabetas) e desemprego (13 milhões de pessoas desocupadas), gestando esse quadro do atual estado das coisas uma legião de “jovens nem-nem”: nem estudam e nem trabalham.

Inobstante a isso, o Senador Flávio Bolsonaro apresentou, em data recente, proposta de emenda à Constituição para reduzir a maioridade penal para 14 anos nos crimes de tráfico de drogas e sua associação. Doravante, ditos criminosos mirins irão cumprir pena privativa de liberdade no atabalhoado sistema penitenciário brasileiro. Ou seja, esses adolescentes passarão a ser “nem-nem-nem”: nem estudam, nem trabalham, nem têm liberdade para agir de maneira diferente.

A proposta de Flávio Bolsonaro vai de encontro à Constituição, pois agride o dever prestacional dirigente do Estado brasileiro de promover “Justiça social”, por meio da implementação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento em geral do adolescente.

Exemplo disso é o “Projeto Legal”, executado a partir de parceria público-privada já há duas décadas, em Central Carapina, sendo fornecido a mais de duzentos beneficiários inserção e capacitação cultural para o futuro. O coroado fruto desse trabalho é o do menino Jeremias Reis, de 12 anos. Assim, certo é que, para reversão holística do atual estado das coisas que recai no Brasil sobre a adolescência, em detrimento da visão de mundo de um “Estado Policialesco”, devemos seguir com a realização do “Estado de Bem-Estar Social”, e assim agirmos pela ética da alteridade e da responsabilidade.

Liberdade de expressão

Yuri Scardini

Nas últimas semanas, a Serra mergulhou numa crise institucional entre Câmara Municipal e Poder Executivo. Em meio ao tiroteio desse cenário político de tom belicista, o Tempo Novo virou alvo de vereadores, assessores raivosos e outros servidores de ambos os poderes.

Para aqueles que ultrapassam os limites da prerrogativa constitucional da liberdade de expressão e navegam pelos turbulentos mares da injúria, da calúnia, das fake news e, especialmente, das ameaças e torpes tentativas de intimidação, um aviso: este jornal não vai se envergar a pressões arguciosas e, muito menos, se afogar nas retóricas conflitantes de ambos os lados; mas, sim, fincar os pés na lucidez de quem respira a Serra há quase quatro décadas e, daqui, acompanhou o surgimento de pretensos poderosos e suas decadências rumo ao ostracismo. O poder é fluido e escorre como chuva.

O Tempo Novo não tem a pretensão de ser o dono da verdade, assim como ninguém o é; muito menos está livre de críticas, assim como ninguém está. Todavia, este jornal não vai se refutar a exercer seu papel junto à sociedade local como um legítimo órgão de imprensa.

Nesse oceano de retóricas conflitantes que tomou a Serra, embarcar de cabeça em movimentos desproporcionais, mal explicados, que guardam elementos anti-democráticos e motivados por duvidosos interesses, é uma irresponsabilidade republicana à qual o Tempo Novo não vai se permitir; assim como deslegitimar a função constitucional dos representantes do povo é um erro inescusável.

Portanto, cabe ao jornal trazer os fatos e apontar as contradições, assim como têm sido feito. Dando espaço para os atores envolvidos darem suas versões, buscando a opinião da sociedade civil organizada e trazendo luz à escuridão por meio do jornalismo livre, que é uma das ferramentas civilizatórias mais retumbantes.

Conforme o degringolar dessa crise, daqui a 20 ou 30 anos, poderá haver pessoas nesta cidade que vão se recordar desse evento político, que colocou em choque os principais líderes dos Poderes locais e, por isso, o prefeito Audifax Barcelos (Rede) e o presidente da Câmara, Rodrigo Caldeira (Rede), estão unidos pelo processo histórico.

E o que o jornal espera é que o subproduto dessa instabilidade seja o amadurecimento das instituições e o aperfeiçoamento da democracia. E que isso possa se transmutar em benefício para a população. Ainda mais nesse cenário nacional de retração econômica e aumento da demanda por serviços públicos, associada ao complexo contexto da Serra e seus 500 mil habitantes. 

Escárnio na Serra não Vale

Bruno Lyra

O projeto de lei de autoria do executivo protocolado na Câmara, no último dia 21 de fevereiro, para proibir descarte de rejeitos da Vale na Serra é justa reação da cidade. A notícia de que uma pedreira abandonada aos pés do Mestre Álvaro seria usada para jogar 36 mil m3 cúbicos de minério de ferro com areia marinha – o que equivale a 1.118 caminhões caçamba de três eixos – surgiu no final de 2017, quando a Vale assinou Termo de Compromisso Ambiental (TCA) com Estado, Ministérios Públicos Estadual e Federal.

O TCA livrou a mineradora de processos judiciais e abriu caminho para a renovação das licenças de Tubarão. Em contrapartida, além da redução do pó preto, a empresa teria que fazer um parque urbano em Vitória (já inaugurado) e retirar o minério que há décadas suja a porção norte da Praia de Camburi.

Esta última ação beneficiaria Vitória e viraria ônus para a Serra. Embora a Vale nunca tenha afirmado nem negado que os rejeitos podem vir para a Serra, a área aos pés do Mestre Álvaro foi licenciada pelo Estado em favor da empresa Marca Ambiental – especializada em aterros de resíduos – para receber rejeitos com as características do minério com areia. Isso dias depois da assinatura do TCA.

É justa a reação do município. A Serra sofre com impactos ambientais e sociais da implantação do complexo de Tubarão. Mas fica com parte menor dos impostos, pois a maior fatia vai para Vitória. Não obstante, o município coloca mais de R$ 1 milhão por ano na Estação Conhecimento, projeto ligado à Vale e usado pela empresa para publicidade e balanço de suas ações de responsabilidade social.

Tudo isso num contexto em que a mineradora deixou o Brasil estarrecido com o estouro da barragem de Brumadinho e Mariana – esta última da Samarco, joint venture controlada por Vale e BHP. Centenas de pessoas mortas e milhares afetadas pela contaminação dos rios São Francisco, Doce e oceano Atlântico, e ainda outros milhares afetados pelo desemprego com a consequente paralisação das atividades do arranjo mínero-siderúrgico.

Estarrecimento que ganhou novos contornos esta semana com a indecente proposta dos governos federal e mineiro de ceder à Vale a gestão de parques nacionais – incluindo o emblemático Caparaó – em troca de a empresa não ter que pagar multas milionárias pelo crime ambiental de Brumadinho. Escárnio tem limite. E a Serra está dando o seu recado.

Reorganizando o crime?

Por Eci Scardini

Desde 1º de janeiro de 2017, a Serra vem protagonizando momentos de muita tensão na esfera política, com desdobramentos na administração municipal. Começou com uma sessão tumultuada, que elegeu a vereadora afastada Neidia Pimentel para a presidência da Câmara. De lá para cá, a política do município não foi mais a mesma e praticamente a cada seis meses um novo round acontece para abalar quem vive na política e também para enlamear o nome da cidade em todo o estado.

Esse de agora é o mais grave de todos, pois atravessou os limites do Legislativo, indo de encontro ao poder Executivo. Como sempre, o caso foi bater as portas do Judiciário e, novamente, é travada uma guerra entre os dois grupos em busca de liminares para fazer valer os interesses e direitos de cada parte.

É possível que as cabeças pensantes da Câmara Municipal, juntamente com alguns atores que se movem de forma oculta nos meandros do nosso Legislativo, tenham subestimado a obstinação do prefeito Audifax Barcelos em defender o seu mandato e, concomitante, a sua honra.

Audifax partiu para o contra-ataque com a fúria de um titã e surpreendeu o mercado. A retórica dos vereadores de apurar supostas fraudes fiscais na prefeitura da Serra – que no primeiro momento agradou o público – perdeu força diante da retórica do prefeito de que o crime organizado, que perdurou por 12 anos na política capixaba, está ressurgindo na cidade, ganhou as ruas e, aos poucos, vai sufocando o discurso dos adversários.

Um organograma com nomes de pessoas ligadas à era Gratz ocupando cargos importantes na Câmara e a vinculação de outros nomes que operam no Legislativo de forma oculta acendeu o sinal amarelo no meio político capixaba e fez com que muita gente graúda ligasse suas antenas. Afinal, trata-se de um passado nebuloso que julgavam estar sepultado.

O caso está longe de terminar; muitas verdades e factóides poderão surgir a qualquer momento. Existem incendiários alimentando a fogueira com combustíveis, mas há também muitos bombeiros tentando apagar a mesma.

O povo, que é o álibi de todos os políticos, não merece passar por essa fogueira.

 

Dando bola ao futebol

Por Bruno Lyra

Desde o final da década de 1990 sem participação expressiva no cenário nacional, o futebol capixaba é sim um produto viável. Este ano, o Estadual vem despertando mais interesse do torcedor que nos anos anteriores.

Até agora, o campeonato tem média de 700 torcedores por partida. No total, já levou mais de 37 mil pessoas aos estádios. Claro, número muito modesto perto dos principais certames do país. Ainda assim, já é um alento e indicador de potencial, uma vez que em 2017 e 2018 a média de expectadores pagantes nos estádios foi, respectivamente, de 356 e 478 torcedores por jogo.

Ajudou a incrementar a média deste ano o fato de vários times tradicionais estarem na disputa: Rio Branco, Desportiva, Serra, Vitória e Estrela. E também o Rio Branco de Venda Nova, que embora não seja tão tradicional quanto os anteriores, é “abraçado” pelos torcedores locais quando joga em casa.

Também ajudou a subir a média de público a contratação do veterano atacante uruguaio Loco Abreu pelo Rio Branco. Isso atiçou o torcedor Capa Preta e também os rivais. Tanto que o clássico contra a Desportiva, na terceira rodada, atraiu 5,3 mil pagantes ao Kléber Andrade. O maior público até agora do campeonato.

O Serra, apesar do desempenho modesto em campo – o time foi eliminado no último final de semana -, ajudou a despertar o interesse no Capixabão ao bater o Remo pela Copa do Brasil e repetir o feito só conquistado por outro capixaba em 1994, com o Linhares: classificar um time do Espírito Santo para a segunda fase da competição nacional.

No duelo contra o time paraense, o Serra levou 1,5 mil torcedores ao Robertão. E depois, contra o Vasco no Kléber Andrade, saiu de cabeça erguida ao perder por “apenas” 2 a 0 contra um clube com investimento muito superior, diante de 15 mil torcedores no estádio e milhões pelo Brasil, já que o confronto foi exibido na TV Globo, em horário nobre.

Destaque, ainda, para as transmissões dos jogos do Capixabão pela internet, através do Torcida ES. Além de milhares de visualizações, cada partida teve centenas de comentários de torcedores. Prova da paixão dos capixabas pelos clubes locais, que merecem mais atenção das grandes indústrias e grupos econômicos que atuam no estado.

Nos passos ao Anchieta

Yuri Scardini

O prefeito Audifax Barcelos (Rede) quer o Anchieta. Este é um entendimento bastante consolidado na Serra e tratado abertamente por seus assessores mais fiéis. Talvez o passo mais sólido para atingir esse objetivo esteja na articulação de um novo grupo político no Espírito Santo. Coisa que já está em curso e tem como cabeças o deputado federal Amaro Neto (PRB) e o presidente da Assembleia, Erick Musso (PRB), além de Audifax, é claro.

Eles são as referências; mas sobrevoando o grupo, há várias lideranças políticas de todo o estado. A nova articulação viu uma oportunidade de se aglutinar após o vácuo de liderança deixado pelo ex-governador Paulo Hartung (sem partido), que deixou o cenário político capixaba para colar em figuras nacionais como o apresentador Luciano Huck.

O objetivo é desenvolver conexões políticas que ajudem tanto no desenvolver de seus mandatos, bem como eleitoralmente. E esse grupo cresce às barbas do governador Renato Casagrande (PSB), que naturalmente não consegue atender a todos. Ou seja, a nova articulação suprapartidária nasce como um polo oposto ao PSB e seus aliados, como o PPS de Luciano Rezende, prefeito de Vitória.

Audifax faz uma jogada interessante: alinha-se com figuras expressivas no contexto capixaba e pode liderar um grupo político que o dê sustentação rumo ao Anchieta. Esta é a jogada. É claro que, até chegar lá, há uma maratona para correr. Os primeiros quilômetros são terminar o mandato bem avaliado na Serra, e por tabela, eleger um sucessor, até mesmo para engordar o grupo emergente.

Inclusive, todas as possibilidades estão na mesa; não será surpresa se o prefeito refizer um caminho em direção ao deputado federal e ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal (PDT). Audifax quer aparar arestas, e pode começar pelo pedetista. Em conversa recente com o Tempo Novo, o deputado usou uma expressão sintomática: “é impossível reatar” com Audifax. Oras, experiente que é, o psiquiatra Vidigal sabe bem que o impossível na política é só questão de perspectiva. O ponto de equilíbrio pode ser um nome comum a ambos para disputar a eleição em 2020. Se algo dessa magnitude acontecer, 2022 nem vai parecer tão longe assim.

Sirene em MG, pânico no ES

Bruno Lyra

Na última sexta-feira (22) tocou, pela segunda vez no ano, a sirene alertando para o risco de rompimento da barragem de rejeitos da mineração da Vale em Congo Soco, Barão de Cocais (MG). Caso essa barragem se rompa, os danos ambientais e sociais devem vir fortes para o Espírito Santo.

A barragem está na calha do rio Doce e tem capacidade para 9,4 milhões de m³ de rejeitos. É da mesma tecnologia das estruturas rompidas de Brumadinho e Mariana. A de Mariana lançou 43 milhões de m³ de lama tóxica no rio Doce e fez parar a Samarco (Vale + BHP), causando prejuízo incalculável à principal fonte de água do Espírito Santo e ao oceano Atlântico nos trechos capixaba, baiano e fluminense.

Prejuízo que se estende para a economia. Houve recuo de mais de 10% no PIB capixaba com a desativação da siderúrgica no sul do estado e toda sua cadeia de fornecedores e prestadores de serviço, que inclui empresas sediadas na Serra. Só na cidade, foram cerca de 1.000 empregos e R$ 400 milhões de negócios/ano a menos desde o rompimento em novembro de 2015.

Como ficará a lenta recuperação disso tudo, caso uma nova onda de lama tóxica desça o rio Doce e contamine o Atlântico? E o impacto econômico ao Espírito Santo, cujo PIB é profundamente dependente do arranjo mínero-siderúrgico?

A barragem de Brumadinho, estourada em janeiro último e cuja lama contamina a bacia do rio São Francisco, já se faz sentir em terras capixabas. É que por decisão da Justiça ou iniciativa própria, a Vale desativou outras barragens em risco, fazendo despencar a exportação em 30% em Tubarão.

O colapso de tantas barragens então pouco tempo é mais um sinal de desinvestimento do setor mínero-siderúrgico no eixo ES-MG. A desistência da Vale em fazer a Companhia Siderúrgica de Ubu (CSU), em Anchieta; o anúncio de que a empresa pode não fazer uma nova ferrovia no Espírito Santo, a fim de priorizar a estrada de ferro no Centro-Oeste; a demora na realização de projetos como Manabi (Linhares) e Ferrous (Presidente Kennedy), além das incertezas que rondam o retorno da Samarco, também são sinais. 

Se tal cenário se confirmar, restará aos capixabas (e mineiros das regiões produtoras) buscarem alternativas econômicas. E cobrar a conta da lama a quem lucrou com esse imprudente modelo de desenvolvimento. 

Hemorragia de um sonho

Yuri Scardini 

Do choque de mudança para o choque de realidade. Esta é uma síntese dos primeiros meses do governo Bolsonaro. Governar um país de proporções continentais como o Brasil demanda quadros políticos que compreendam em minúcia a complexidade desse desafio. Talvez Bolsonaro sequer tivesse noção de onde estava se metendo.

A pesquisa Ibope traz a queda de 15 pontos na aprovação do governo. Este número é muito sintomático, mas não tão imprevisível, uma vez que Bolsonaro prometeu muito e, naturalmente, a capacidade de realizar mudanças é muito mais lenta do que a voraz expectativa de seus eleitores.

Bolsonaro se elegeu prometendo soluções simplórias para o abismo da realidade. “Acabar com a corrupção? Vamos prender o Lula e os “petralhas”! Melhorar a Educação? Vamos dar um fim na doutrinação marxista das escolas! Segurança Pública? A solução é armar todo mundo!” Economia? Agora eu sou liberal!, taokay?”.

O problema é que ele é vidraça agora. E as soluções não apareceram como num passe de mágica. O brasileiro se acostumou a entender a política como um “FlaxFlu”. Isso é muito nocivo para a democracia, uma vez que além de ser um erro infantil, alçar políticos à condição de heróis é uma fantasia perigosa. O fanatismo cego de direita é equivalente ao de esquerda em corporativismo ideológico; aquele mesmo que faz pessoas crerem na inocência do ex-presidente Lula.

A governabilidade de Bolsonaro está condicionada ao seu apoio popular. Portanto, se ele se desidratar, os “leões” de tocaia em Brasília vão dar o bote, e não vai ter Twitter que segure. Outro problema é contemporizar as várias vertentes internas do governo. Obviamente, todo governo tem suas disputas internas; mas sob discurso antipetista, Bolsonaro uniu água e óleo: o positivismo do exército ao fundamentalismo religioso da bancada evangélica. O liberalismo com os ruralistas. Este caldo químico está fervendo e Bolsonaro não dá sinais de que terá habilidade para contemporizar tantos interesses.

Sem contar os atos questionáveis de seus filhos e também suas relações aproximadas com milicianos cariocas. Tudo isso pode deflagrar crises nucleares dentro do governo. Numa avaliação rápida, Bolsonaro vai ficando acuado e a realidade, batendo a porta.

Opinião TN | Educação é civilização

Bruno Lyra

O monstruoso ataque na escola de Suzano na semana passada, em São Paulo, é exemplo extremo do quão difícil tem sido a vida no ambiente escolar no Brasil. Para crianças, adolescentes e jovens, a escola é espaço de socialização. Papel que certamente ganha mais importância num mundo cada vez mais urbano, virtual e hostil, onde as brincadeiras de rua foram perdendo espaço para a violência e o trânsito frenéticos, e a sedução das redes sociais.

Essa escola contemporânea e seus professores estão sob ataque no Brasil. Parte da sociedade e lideranças políticas que emergiram ao governo federal defendem o que chamam “escola sem partido”. Querem o retorno do culto à disciplina tal como era praticada décadas atrás. Defendem que educação sexual orientada para diversidade e opiniões políticas de professores, dependendo da ideologia, sejam cerceadas. Até mesmo o Ministério da Educação estimula a filmagens de professores supostamente de esquerda e que os vídeos sejam usados para denunciá-los.

A ideia da escola sem partido é tão desonesta que, na verdade, quer impor uma agenda político-ideológica conservadora, alinhada com o atual governo. O que além de não ajudar o processo pedagógico, fere a liberdade de cátedra garantida pela Constituição Federal.

Disciplina e respeito à escola são importantes por parte dos alunos. Mas também importa a criticidade, o questionamento, a liberdade de expressão. Escola não tem que ser de direita ou esquerda. Tem que ser de todos, incluindo as questões de gênero. Ciência se faz com pluralidade. Civilização avança com tolerância.

No cerne desse debate está a eficiência de ensino. É notório que o modelo escolar é falho e custou para fazer pequenos avanços. Transversal a isso, vieram a internet e as redes sociais. Hoje, qualquer aluno pode questionar o conhecimento transmitido pelo professor, dispondo de acesso à web e tendo discernimento de checar fontes fidedignas.

Tudo que as escolas não precisam é ficar ainda mais quadradas. E o pior, bélicas. De autoridades, vieram defesas de teses de que professores e funcionários deveriam atuar armados. Parece loucura, e é. Tais ideias só refletem uma sociedade cada vez mais armada, intolerante e violenta. Exatamente o oposto da razão para a qual foram criadas escolas.

Quem quer ser um estadista?

Yuri Scardini

A eleição de 2020 pode trazer uma novidade: a ausência dos dois principais líderes políticos locais das últimas duas décadas. Trata-se do prefeito Audifax Barcelos (Rede), que não pode se reeleger – uma vez que já o fez em 2016 -, e também a possibilidade de o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT) não ser candidato, como ele sugere em entrevista publicada pelo Tempo Novo nesta edição.

É fato consumado que esse cenário é sedutor para lideranças externas. E isso tem deixado o mercado político local pensativo. Será que a “nova” geração vai dar conta de segurar o boi pelo chifre e impedir o crescimento de projetos desconectados com as raízes da Serra?

É uma dúvida plausível. Afinal de contas, a eleição de 2018 priorizou o discurso do “novo”, em um processo crescente e demagógico de demonização/negação da política, como se esta não fosse inerente à vida em sociedade. Além disso,demonstrou a força do populismo – impulsionado pelas redes sociais – e valorizou os discursos extremistas e pouco aplicáveis.

Resumidamente, o justo sentimento de revolta da população que gerou a crise de representatividade foi canalizado na degola dos caciques políticos e trouxe quadros que ainda suscitam dúvidas sobre a capacidade de compreensão da dinâmica de uma sociedade tão plural quanto à brasileira. Portanto, o campo é fértil para o surgimento de um fenômeno outsider na Serra em 2020.

Pelas mãos de Audifax e Vidigal, a Serra nos últimos 30 anos foi a cidade que mais cresceu no Espírito Santo e hoje é a locomotiva econômica. Agora, chegou a hora de passar o bastão. Por mais que uma parcela expressiva da população possa demonstrar cansaço com o nome dos dois, são absolutamente inegáveis seus respectivos legados. Em perspectiva histórica, Audifax e Vidigal sempre serão mais do que quadros na parede; estão entre os protagonistas pela Serra como fenômeno urbano.

Sinais muito fortes dão a entender que pode haver um entendimento nesse sentido entre Audifax e Vidigal: “a missão não acabou”. Talvez eles nunca cheguem a apertar as mãos, mas pode haver uma composição de consenso que vai gerar um nome comum a ambos e com identidade e raízes na Serra. Pode ser um caminho interessante para o município desviar de aventureiros duvidosos.

Desapreço por Laranjeiras  

Bruno Lyra

Desde que a Serra entrou na sua fase industrial, em meados da década de 1970, e que a transformaria na maior cidade do Espírito Santo, Laranjeiras virou bairro de referência não só para quem mora no município, mas também para quem vem de fora.

O que não blindou a localidade de alguns desleixos absurdos. O primeiro deles é o depósito de carros apreendidos pela polícia. Poucos meses depois de solucionar o problema na calçada da delegacia, o governo estadual agora não consegue impedir que o terreno vizinho ao terminal de Laranjeiras – do outro lado da importante Avenida Civit – vire depósito de veículos.

Um problema que vai muito além da estética. Carros e motos amontoados servem de abrigo para malfeitores, contaminam o meio ambiente e inutilizam um terreno nobre. Sem contar que os veículos sob a responsabilidade estatal sequer ficam livres de saqueadores.

Outro desleixo está ali ao lado, no terminal do Transcol. E por pouco não vira tragédia. Por duas ocasiões – uma em 2017 e outra no último dia 06 de março –, ônibus descontrolados desceram da área interna do estacionamento da plataforma rodoviária, passaram sobre a calçada e ficaram atravessados no meio da Avenida Civit. Com a palavra sobre a solução para evitar novos acidentes, a Ceturb. A autarquia estadual é a responsável pelo Sistema Transcol.

E entre as avenidas Civit e BNH, mais um símbolo do desapreço por Laranjeiras. As ruínas daquele que já foi o maior colégio público da Serra: a Escola Estadual Aristóbulo Barbosa Leão. De uma reforma iniciada em 2012 e paralisada em 2014, sobrou um terreno cheio de mato e de entulho oriundo da demolição do antigo prédio. Um problema sanitário e de segurança, uma vez que o ambiente está sem vigilância e com livre acesso. Sem contar o impacto aos alunos e suas famílias e aos profissionais da instituição, que desde 2012 funciona num prédio cheio de problemas em Jardim Limoeiro.

E como não falar do estádio da Associação de Moradores, desfigurado pela voraz instalação de imóveis comerciais em seu entorno e em terrenos da comunidade? Problema que deu combustível à discórdia no movimento comunitário, que agora, por decisão judicial, teve o grupo político trocado. Uma das plataformas do grupo que ascendeu é a recuperação do campo. Só o tempo dirá se essas novas lideranças estarão à altura do que Laranjeiras representa para a Serra.  

O mito do pós-carnaval

Bruno Lyra 

Em tempo de tantas mitologias e mitos no país, uma lenda urbana forte é a de que o Brasil começa o ano após o carnaval. Se é isso mesmo, então está na hora de fazer muitas tarefas de casa na frente ambiental.

Uma delas em relação a essas queimadas que prejudicam ainda mais a já castigada saúde respiratória do morador da Serra e de cidades vizinhas. Em uma semana, foram registrados incêndios em área de turfa na Serra, Aracruz e Guarapari.  Também houve registros de fogo em áreas de vegetação. Tais situações estão ficando recorrentes e tendem a se agravar com o avanço sem planejamento da urbanização e o aquecimento global.

Outra tarefa é com a Petrobras. A empresa tem que ser mais clara sobre a deposição de lixo radioativo na área do TIMS. O caso só veio a público após o incêndio que atingiu 942 tambores de 200 kg contendo a substância, no dia 28 de janeiro. E ainda não há respostas sobre a contaminação que isso pode ter gerado.

Também precisa fazer o seu dever a Suzano, que comprou a Fibria (ex-Aracruz Celulose). Dona de quase 9% do território da Serra, onde usa os terrenos para plantio de eucalipto em escala industrial, a empresa precisa explicar para a cidade os seus planos. Até porque já são conhecidos os impactos ambientais da monocultura de eucalipto, que inclusive recebem pulverização aérea de agrotóxicos.

Tem ainda a Statkraft, empresa que comprou da EDP as barragens de Rio Bonito e Suíça no rio Santa Maria de Vitória, manancial que abastece e deságua na Serra. É preciso mais clareza sobre as consequências de um eventual rompimento dos reservatórios e a respeito do controle das estruturas.

Do Complexo de Tubarão (Vale e ArcelorMittal), espera-se  que as anunciadas obras para reduzir o pó preto cumpram seu objetivo e que não sejam uma expansão produtiva velada. A Arcelor já garantiu que não será expansão.

E o que não dizer da tragédia do saneamento com o esgoto sob responsabilidade da Cesan e o seu puxadinho, a Ambiental Serra.

Outra tarefa, talvez ainda mais complexa que as anteriores, é a da gestão pública e privada para a redução no calor das cidades. Médicos têm alertado para o aumento de risco de morte, sobretudo para pessoas debilitadas e/ou portadoras de doenças cardiovasculares.  

O difícil é imaginar que todas essas iniciativas aconteçam na gestão de um presidente que foi eleito apontando a preservação ambiental como vilã. Se a sociedade não reagir, o prejuízo vai aumentar.       

Onde mora um prefeito?

Eci Scardini

Caso o deputado federal Amaro Neto (PRB) e o secretário de Defesa Social da Serra, coronel Nilton Rodrigues (sem partido), queiram de fato ser candidatos a prefeito do município na eleição do ano que vem, o melhor que têm a fazer imediatamente é vir morar na Serra. É inconcebível que uma pessoa queira ser candidato ao posto de chefe do poder Executivo da maior cidade do estado, mas residindo em Vitória.

Amaro Neto mora em um apartamento na Enseada do Suá e Nilton, em uma casa no centro de Vitória. É inegável, para muitos, que a qualidade de vida na capital é melhor do que na Serra; então é confortável ser candidato aqui, morando lá. Mudar para cá só em caso de vitória. É uma tremenda falta de respeito ao povo da Serra se isso vier a acontecer.

Amaro e Nilton devem alugar uma casa ou apartamento em algum bairro da Serra e trazer suas famílias; suas esposas devem criar relacionamentos aqui na cidade, construir um novo círculo de amizade, escolher uma igreja local para frequentar (ser for o caso); seus filhos, de preferência, devem estudar em uma escola local, ter suas horas de lazer e entretenimento por aqui e fazer suas compras no comércio local.

Mas não é para fazer isso faltando apenas seis meses para a eleição. Tem que ser já, pois assim estarão mostrando respeito ao povo da Serra e ao eleitorado. Dessa forma, serão dignos de respeito e mostrarão que não são oportunistas ou que só querem usufruir do bônus que a Serra pode lhes propiciar.

A Serra é uma cidade boa para se morar, mas é inegável que a capital tem mais atrativos, maior sensação de segurança; e por já estarem sedimentados em Vitória, esposas e filhos vão preferir ficar por lá.

Vem Amaro Neto! Vem coronel Nilton!Suas candidaturas irão enriquecer o debate eleitoral e aumentar o leque de opções dos eleitores. Mas tragam suas famílias já!

Sou mais eu mesmo

Eci Scardini

Na semana passada, o deputado estadual licenciado e secretário de Estado de Trabalho e Assistência Social, Bruno Lamas, fez um convite ao prefeito Audifax Barcelos para voltar às fileiras do PSB, sigla à qual já esteve filiado no seu mandato de deputado federal e em boa parte no de prefeito.

O convite não foi bem digerido por Audifax não. O prefeito sabe que o PSB tem dono e chama-se Renato Casagrande. Portanto, ao final, é a vontade dele que irá prevalecer sobre a dos demais.

A iniciativa de Lamas só tem um objetivo: facilitar a sua vitória nas urnas na eleição de prefeito, em 2020, seu grande sonho. Filiar o prefeito ao PSB significa ganhar duas vezes: tirar do caminho alguém que teria o apoio de Audifax para prefeito – e que nesse momento não é ele (Bruno Lamas) – e, claro, ter o apoio do prefeito.

Se tem uma coisa que Audifax não é, é bobo. Pelo contrário. Político de grande perspicácia, de muita agilidade e de coragem, pode muito bem ter interpretado o convite como uma mensagem cifrada dizendo: vem para cá que vou lhe garantir uma vida boa: obras, recursos, convênios etc.

Provavelmente, Audifax faz o seguinte questionamento: eu vou fazer o que no PSB? Eles irão me deixar ser candidato a governador em 2020, ou quem sabe ao Senado? Claro que não. Audifax não seria prioridade do PSB; ficaria a reboque do que os cabeças coroadas da sigla decidissem.

De mais, a questão é: como ele vai voltar a se filiar ao partido do governador Casagrande, com quem teve uma queda de braço por conta dos convênios assinados entre o Estado e o Município no ano passado, fato que sacou quase que na marra cerca de R$ 14 milhões que iriam equipar unidades de saúde, como a UPA de Castelândia e o hospital Materno Infantil? De quebra, o Estado ainda inseriu a Serra no Cadin, que é uma espécie de Serasa.

Audifax pode ir para um partido e até dividir o posto de cacique, mas não para ser índio, fase esta que já passou. Abanar o leque, falando “vem que nós vamos aliviar para você”, Audifax pode entender como chantagem; e aí, o efeito é o inverso.

Portanto, é inócuo Bruno Lamas convidar Audifax para voltar ao PSB e, diga-se de passagem, o próprio Bruno tem consciência de que isso não irá acontecer.

Complexo de vira-lata

Bruno Lyra

Se o brasileiro já padece de um antropológico complexo de vira-lata, o que dizer do capixaba que foi ao estádio Kléber Andrade no último dia 20 e vaiou ruidosamente o time do Serra no jogo contra o Vasco pela Copa do Brasil? Seria uma espécie de complexo de vira-lata ao quadrado?

O goleiro do tricolor serrano, Walter, reclamou publicamente, e com razão, da postura dos capixabas. Que simplesmente foram em peso apoiar o milionário Vasco, pagando R$ 140 no ingresso para entrar num estádio construído com dinheiro público. Preço que não é normal nem em finais no Maracanã.

Esse mesmo capixaba não tem coragem de dar R$ 20 para ver o Serra, Rio Branco, Vitória, Desportiva, Estrela, São Mateus, entre outros sofridos clubes locais. Não é normal a torcida local desprezar o time da casa e ovacionar o alienígena. E isto longe de ser uma questão xenofóbica; mas simplesmente de apoio ao desporto e desenvolvimento humano local.  

É triste constatar que mesmo em estados onde o nível técnico do futebol é frágil como o do ES, nota-se mais apoio às agremiações da casa. Nesse sentido, o Serra foi exitoso em ter conseguido jogar essa partida e perder apenas por 2 x 0 de um time que, além de mídia espontânea nacional diária (e capixaba também), recebe uma gorda cota de TV.

O futebol é um dos símbolos da cultura nacional. A forma como a grande maioria dos capixabas trata os times locais revela problema de identidade cultural. Coisa que pode ser notada até no desfile das escolas de samba espírito-santenses, antecipado em uma semana para não ser esvaziado pelo público local, mais interessado em Beija-Flores, Mangueiras, Portelas e congêneres.

O problema identitário talvez seja uma das explicações para o nanismo político do Espírito Santo. As lideranças capixabas não conseguem nem mesmo que as indústrias gigantes e poluidoras, que muito levam e pouco deixam aqui, deem substancial apoio não só a times de futebol, como também ao desporto capixaba em geral.

Por hora, resta o desabafo do goleiro Walter e a tenacidade dos ‘gatos pingados’ que topam vestir a camisa dos times locais e levar adiante a bandeira do Espírito Santo. Estes não são vira-latas.

Dissimulação X transparência

Por Bruno Lyra

Em julho do ano passado, a ArcelorMittal Tubarão anunciou obras para reduzir a emissão de pó preto em 16% até 2023. Em janeiro, a empresa fez outro anúncio: o de que irá dessalinizar água do mar para reduzir a pressão sobre o uso do rio Santa Maria, manancial que atende Serra e Vitória. A Arcelor é a maior consumidora individual de água desse rio.

Na última semana, através do Secretário Estadual de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social, Bruno Lamas, veio a notícia de que a Arcelor irá ampliar o alto-forno. Ficam as perguntas: trata-se de uma nova expansão? Essa expansão estaria sendo dissimulada sob a justificativa de investimentos ambientais?

Não está claro. Mas não deveria haver dúvida. Transparência é o mínimo que o arranjo minero-siderúrgico deveria ter após as tragédias/crimes ambientais de Mariana e Brumadinho (MG), e da cotidiana descarga de pó preto e gases no ar da Grande Vitória.

A Vale, gigante fornecedora de minério e razão de ser da Arcelor em Tubarão (ex-CST), também anunciou investimento para reduzir a poluição. Não será também uma expansão?

Vale e Arcelor tiveram expansões em meados da década de 2000, a despeito dos questionamentos sobre a já problemática poluição que emitiam até então. Expansões que tiveram impacto social direto na Serra, cidade que abrigou a imensa mão de obra temporária usada nas obras, mas não empregada na operação. Não dá para esquecer que, na época, a Serra foi a cidade com a maior taxa de assassinatos do mundo.

Há precedentes da falta de transparência na siderurgia. No início da década de 2000, a Vale tentou fatiar o licenciamento de sua expansão, pedindo autorizações específicas para cada uma das sete usinas que sofreriam up grade e a construção da oitava. Por pouco não colou. Se colasse, sequer haveria audiências públicas para que a expansão fosse apresentada e pudesse ser debatida com a sociedade.

Mas como poderá haver expansão em Tubarão agora, considerando que a Vale está sendo obrigada a reduzir produção por conta da paralisação compulsória de lavras e barragens de rejeitos no calor da repercussão da tragédia de Brumadinho? Só a empresa pode responder.

Mas há de se lembrar que só parte do minério que chega a Tubarão é transformado em pelotas. Boa parte é exportada sem beneficiamento. E priorizar o beneficiamento local pode ser o caminho.

Miséria no debate político

Por Yuri Scardini

Na eleição de 2018, em grande medida, o que permeou o debate (quase inexistente) eleitoral foi a dualidade superficial de esquerda vs. direita. Essa tendência foi vista fortemente na corrida presidencial, da qual saiu vitorioso o então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), que polarizou com o PT no segundo turno.

Aqui no Espírito Santo não foi diferente. É verdade que o super cotado Renato Casagrande (PSB) ganhou no 1º turno para governador, mas não significa que tenha sido menos sintomático. O segundo colocado, Carlos Manato (PSL), saiu do limbo de 1-2% das intenções de voto para 27,5% ao fim do pleito e quase levou a disputa para o 2º turno. Manato deu esse salto de tamanho única e exclusivamente colando sua imagem à de Bolsonaro e atacando uma “esquerda socialista” genérica.

Além disso, vimos uma inexpressiva candidata do PT chegar em 3º, à frente da senadora Rose de Freitas (Pode). Esta, em especial, foi um case muito interessante. Rose ficou em cima do muro, não construiu uma imagem clara junto ao eleitor. Fez uma eleição sem foco, sem definir “lados”, querendo agradar a todos; mas acabou sendo esquecida pelo eleitor.

Agora, pergunta-se, será que esse debate pobre, estruturado numa versão “entre o bem e o mal”, será reproduzido na eleição de 2020? De cara, dá para dizer que sim; mas o que não se sabe é o grau de importância que isso terá junto aos eleitores. 2020 é ano de eleições locais; portanto, temas locais terão muita expressividade. Por isso mesmo, o prefeito Audifax deve investir em obras para tomar corpo e conseguir emplacar um sucessor.

Mas em muita medida, o debate “direita e esquerda” vai depender muito do sucesso, ou não, do governo Bolsonaro, já que foi eleito sob essa condição. Aqui na Serra, entre os cotados para prefeito, apenas o deputado Vandinho Leite (PSDB) já definiu o “lado” ideológico que vai defender. Pode ser uma decisão prematura e condicionada a um governo Bolsonaro imprevisível. Todavia, é uma aposta que, se der certo, Vandinho se coloca como nome expressivo na disputa.

O que deve ocorrer em 2020 é a escalada do populismo, especialmente o virtual. Como o prefeito de Colatina, Sergio Meneguelli, se especializou. Falar de economia? Não! Falar de temas estruturantes? Não! Mas fazer vídeos pintando rua, aí sim a população parece adorar. Se uma eleição pautada na pobreza do debate já é um risco à democracia, o populismo pode potencializar isso.

 

Na política, o morno ferve

Por Yuri Scardini

Em 2019, não haverá eleição. Contudo, não significa que será um ano ameno politicamente. A largada já foi dada e a regra é criar musculatura eleitoral para ter peso político no momento das negociações pré-eleitorais.

Na Serra, os rumos do prefeito Audifax Barcelos (Rede) são fundamentais para o desenrolar dos fatos. O prefeito vai dando corda para alguns que ficam na esperança de serem abençoados com a dianteira na fila de sucessão.

Acontece que não seria de se assustar caso Audifax simplesmente se furtasse de ter que construir efetivamente uma linha de sucessão. Ele está focado em terminar o mandato bem avaliado para coroar suas três gestões como prefeito da Serra. Audifax sonha com o Anchieta, e a Serra, sozinha, fica pequena nesse contexto.

Já seu adversário histórico, o deputado Sérgio Vidigal (PDT), perdeu muita capilaridade eleitoral e está todo enrolado com processos judiciais. A aliados bem próximos, Vidigal jura de pé junto que não será candidato a nada em 2020, mesmo que legalmente não haja impedimentos.

Estabelecido mesmo na corrida para 2020 está o secretário de Estado Bruno Lamas (PSB). Abençoado pelo governador Renato Casagrande, o socialista assumiu um posto estratégico e agrega em torno de si um polo muito grande de apoiadores. Parece que após 40 anos de Serra, a família Lamas decidiu de vez deixar de ser coadjuvante e quer ser protagonista. Bruno será vidraça neste ano, uma vez que está estampado na vitrine política serrana. Mas é astuto e sabe reagir.

Na corrida para ganhar tamanho, estão os deputados Vandinho Leite (PSDB) e Alexandre Xambinho (Rede). Vandinho parece que já definiu seu lado no campo ideológico, que pode repercutir com força eleitoralmente. Ao lançar o projeto “Escola Sem Doutrinação”, polarizando com Mageski, e costurar com entidades como MBL e similares, Vandinho quer marcar território no campo da centro-direita conservadora, que está em ênfase no Brasil.

Já Xambinho espera um sinal de Audifax, e há dúvidas se ele tem condição de emergir sem a mão do prefeito. Todavia, nas sombras, o habilidoso Flávio Serri trabalha para Xambinho. E desse, o mercado político local não dúvida das capacidades de articulação.

E tem “os de fora”, que nesse momento é o deputado Amaro Neto (PRB) e Carlos Manato (PSL). Ambos estão de olho na Serra, mas até 2020 deve aparecer mais. O que não se pode mesmo é duvidar da capacidade de surgir um “novo nome”, especialmente pelo fenômeno das redes sociais.

 

Vale nossa submissão  

Por Bruno Lyra

O embargo da Vale imposto por Vitória no último dia 07 representa a terceira vez que os capixabas conseguem parar pelo menos parte das atividades da mineradora por conta da poluição. A empresa havia sido embargada em 1991 pelo então governador Max Mauro, na época ainda estatal de nome Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). O outro embargo foi em janeiro de 2016, após a Polícia Federal flagrar despejo de minério no mar.

Nas três situações, uma coisa em comum: a Serra não foi protagonista em nenhuma delas. Embora a tributação das oito usinas de pelotização e dos portos da multinacional fique na capital Vitória, na Serra estão localizadas estruturas importantes da Vale, como ferrovia, entrada de veículos pesados e oficina de locomotivas. Sem contar que a planta siderúrgica da ArcelorMittal Tubarão (ex-CST) fica na cidade, embora a sua tributação seja dividida com Vitória. A antiga CST só está ali por conta das pelotas de minério da Vale. É mais do que uma vizinha, é intermediária do arranjo no qual a Vale é base.

É justo Vitória apertar o calo da Vale. Além do aumento de pó preto neste escaldante e árido verão, a mineradora segue jogando água suja com minério no mar. Mas a poluição da Vale é problema de décadas, está ali desde que a empresa se instalou em Tubarão, no final dos anos 1960.

A ‘peitada’ de Vitória na titã mínero-siderúrgica tem outra razão: aproveitar a imagem  desgastada da empresa após o rompimento da Barragem em Brumadinho (MG), no dia 25 de janeiro, e da fraca resposta ao colapso na bacia do rio Doce com o estouro da barragem da Samarco (Vale + BHP) três anos antes, na também mineira Mariana.

Nada mais oportuno para os capixabas questionarem sob esses holofotes o rompimento diário de ‘barragens’ de pó preto que prejudicam sua saúde e patrimônio, em flagrante desrespeito ao artigo 225 da Constituição Federal.

Pena a Serra estar longe desse protagonismo. A ainda modesta representação política em nível estadual e a extrema dependência do setor industrial em sua economia, assentada em empresas satélites ao Complexo de Tubarão, talvez expliquem essa ausência.

Porque pó preto aqui também há muito. Basta uma inversão térmica ou soprar vento sul para sentir o que moradores de Vitória, Cariacica e Vila Velha passam com o vento nordeste.

Pó, lama e reinvenção capixaba

Por Bruno Lyra

Na última semana a Vale disse ao Tempo Novo que o fechamento de 10 barragens, decidido na esteira do catastrófico rompimento em Brumadinho – MG traria impactos “pouco significativos” ao ES. Além de diva do pó preto, a Vale é pilar da economia contemporânea do ES, em especial da Serra, a mais industrializada cidade capixaba. Logo, por menos “significativo” que seja para empresa, qualquer turbulência na gigante da mineração tem potencial para balançar o estado.

A decisão judicial mandando parar a mineração  na área da maior lavra de minério de ferro de Minas Gerais, Brucutu, na cabeceira do rio Doce em São Gonçalo do Rio Abaixo – MG é certeza de problemas graves para a economia do ES. A produção de lá vem para Tubarão. E se a barragem romper são mais 16,5 milhões de m3 de lama tóxica na bacia do rio Doce. Bacia que já recebeu 43 milhões de m3 da barragem da Samarco (Vale + BHP) em Mariana, rompida em novembro de 2015.

Samarco cuja paralisação fez o PIB do ES recuar 12%. Impacto até hoje sentido pelo Estado, por municípios, fornecedoras e prestadoras de serviço. Gerou desemprego em escala industrial. É notória a dependência do ES em relação ao arranjo mínero- siderúrgico.

Os rompimentos das barragens, abandonos de lavras e outras barragens, a desistência do projeto da CSU, o desejo da Vale em fazer ferrovia em Mato Grosso em detrimento do litoral sul do ES, além da indefinição sobre a Samarco, podem indicar declínio do setor mínero siderúrgico na região Sudeste. A médio e longo prazo o ES terá que se reinventar economicamente.

Há coisas no horizonte que, acima de tudo, dependerão de interesse e força política dos capixabas. No centro do litoral brasileiro, com ferrovia ligando ao coração do Brasil e perspectiva de duplicação das BR´s 262 e 101, reativar a ideia de um  corredor Centro Leste é uma boa. O gás natural, menos impactante que a mineração, também é outro bom negócio.

De natureza belíssima e enorme variedade cultural, tem enorme potencial turístico. De mar e montanha, tão pertos um do outro. Também poderia apostar em atrair cérebros para o desenvolvimento de alta tecnologia, considerando a boa qualidade de vida que consegue proporcionar, diferente de lugares com megacidades como Rio, São Paulo e Belo Horizonte.

A fruticultura tropical, a olericultura, também são saídas. Seja em formato agronegócio, seja agricultura familiar. O estado tem experiências exitosas com o cacau, café e mamão e outras tantas em curso, ainda embrionárias.

Nos passos do presidente

Por Yuri Scardini

Pouco mais de um mês do Governo Bolsonaro, o que é possível avaliar? O recorte é curto, mas é fato que Bolsonaro tem muitos desafios, como conter a violência e dar jeito na economia fraturada, para continuar tendo apoio popular e governabilidade.

No primeiro mês Bolsonaro facilitou à posse de armas. Medida questionável, pois armar a população é política ambígua de segurança e divide as opiniões, ainda mais entre os mais vulneráveis, como mulheres, gays e negros. Até uma estapafúrdia comparação de armas com um liquidificador foi feita.

Tem o pacote anticrime do ‘superministro’ Sérgio Moro. Também alvo de polêmica (como tudo que o ex-juiz fará daqui em diante) e as medidas ganharam elogios e críticas. Se haverá resultados objetivos só o futuro dirá. Mas é certo que o tema segurança pública foi alvo atenção neste primeiro momento.

No campo econômico, a ida de Bolsonaro a Davos foi mais discreta do que a expectativa. Foi breve e deu um ‘toco’ nos jornalistas internacionais. Mas marcou presença e mantém aparentemente uma animação no mercado. O grande desafio segue sendo a Reforma da Previdência, que em 2019 deve consumir três vezes mais recursos que Saúde, Educação e Segurança juntos.

O ministro da economia, Paulo Guedes já está negociando nas diversas frentes. Um dos gargalos está no que tange aos militares (presentes em peso no Governo). Eles apresentam muita resistência para abdicar de privilégios. A categoria significa quase 50% do rombo previdenciário, porém apoiou Bolsonaro em peso. Se a Previdência não for equalizada, a liquidez financeira do Brasil vai ser estrangulada. E Bolsonaro vai desidratar rápido.

No campo moral-ético, que tem profundos reflexos na governabilidade, uma vez que está condicionada ao apoio popular e a bandeira da anticorrupção, o Governo Bolsonaro nomeou ministros com currículo duvidoso, alguns investigados e outros até réus. O que amolece seu discurso eleitoral. Além das questões que envolvem o filho e senador Flávio Bolsonaro (PSL) e o motorista Fabrício Queiroz, entre outras coisas é acusado de envolvimento com milícias do Rio.

No campo político, Bolsonaro se saiu bem. Costurou com Rodrigo Maia (DEM) e derrubou o senador Renan Calheiros (MDB), que perdeu a eleição do Senado para Davi Alcolumbre (DEM). Agora é aguardar para ver os novos lances deste controverso presidente.

 

Nossa casa… urgente!

Por Bruno Lyra

A cada dia arrebenta uma “barragem” de minério na Grande Vitória. Só que na atmosfera. O ar repleto de pó preto, gases siderúrgicos, gera tragédia mais sutil, mas não menos nociva: doenças respiratórias crônicas que podem estar matando aos poucos milhares de capixabas.

Neste janeiro (mais um!) atipicamente seco e ainda mais quente que o normal, a fumaça das queimadas está mais nociva. E, para piorar, se somou à fumaça negra do incêndio na área da Petrobrás no TIMS, local em que há armazenamento até de material radioativo. As aspersões de agrotóxicos com aviões nas plantações da Suzano (ex- Aracruz Celulose e ex-Fíbria), fato que também ocorre nos mais de 5 mil hectares de plantações no município, completam o quadro de desleixo ambiental por parte de indústrias gigantes.

Tamanha crise ambiental e de saúde pública não comove os governantes. Pelo contrário. É notório, nos últimos anos, o desmanche da legislação ambiental e dos órgãos responsáveis pela fiscalização.

Tanto que o novo governo federal foi eleito com discurso de que proteção ambiental atrapalha o desenvolvimento. O que encontrou eco em parte da elite financeira e produtiva, que viu janela de oportunidade para maiores ganhos reduzindo custos do que chamam de externalidades. Está mais forte a ideologia do que preservação do meio ambiente que é obstáculo para o crescimento econômico.

Do presidente da República e seus correligionários, não faltam afirmações de satanização a órgãos como Ibama, ICMbio e similares. E de ataques às políticas de demarcação de terras indígenas, áreas que além da preservação cultural e humanitária, são notórias conservadoras de floresta, biodiversidade e água.

Falácias que não se sustentam. Tanto que o chefe do executivo nacional diz, num dia, aos maiores investidores do planeta, que o Brasil é referência mundial no cuidado com a natureza. E no outro dia estoura a barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho, a segunda em três anos.

Enquanto isso, o novo governo do ES escala um ex-diretor da Vale para presidir o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema). Governo este que, na gestão passada, reduziu a proteção do Mestre Álvaro com aval da Prefeitura da Serra.   

Agora é guerra!

Por Yuri Scardini

Ao se negar a devolver os recursos dos convênios para o Estado e publicar um vídeo deslegitimando o decreto que determinou a devolução, classificando a medida como de caráter “meramente político”, o prefeito da Serra Audifax Barcelos (Rede) empunhou a espada e partiu para o confronto com o governador do Estado, Renato Casagrande (PSB).

Essa é uma das grandes novidades na política da Serra. Um ato de insurgência de um prefeito contra um governador. Historicamente, sempre houve uma espécie de alinhamento. Alguns podem citar o ano de 2006 quando o ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT) foi candidato ao Anchieta contra o ex-governador Paulo Hartung (sem partido), mas aquele evento ficou mais para uma disputa de compadres.

Audifax tem perfil de ‘partir para cima’ e quando acuado, ele ataca. E é assim que ele vem tratando esse tema dos convênios que deve ser o marco zero do levante político de Audifax contra Casagrande, visando o Palácio Anchieta em 2022. Nos bastidores, aliados do governador tratam Audifax como “o maior opositor ao nosso governo”. Isso não é pouco.

Audifax começou a dar sinais disso ao se afastar politicamente de Casagrande em meados de 2017, e em 2018 ao menos três fatos já desenhavam esse cenário bélico entre o prefeito e governador: 1) a decisão de manter a Rede no palanque de Rose. 2) a aproximação umbilical com o ex-governador Paulo Hartung. 3) o escanteamento do deputado Bruno Lamas (PSB) da sua sucessão na prefeitura.

Neste caso específico dos convênios, Audifax é franco atirador. Além de ser um assunto que gera muito interesse (tem sido um dos temas com mais audiência nos canais de comunicação do Tempo Novo, só para citar) a opinião pública parece estar simpática ao prefeito. Uma forma contemporânea de medir isso é o tamanho das críticas à Casagrande nas redes sociais.

Parece óbvio: um prefeito sozinho brigando contra o todo poderoso governador, “que quer tirar dinheiro da Serra”. Mas objetivamente, apesar de ser um montante de dinheiro expressivo, R$ 24 milhões em convênios, no bojo de um orçamento de R$ 1.7 bilhão, passa despercebido. A curto prazo, Audifax encorpa politicamente com essa insurgência, e se estabelece como polo oposto à Casagrande, e vai com isso liderando uma oposição que tende a crescer no próximos anos.

A longo prazo, é uma briga de Davi contra Golias. Casagrande tem muita condição de retaliar, especialmente na eleição de 2020. Mas assim como na bíblia, mesmo com poucas chances e desacreditado, foi Davi quem levou a briga. Audifax é religioso e na política, é brigão. Talvez esteja ele se inspirando em Davi.     

Com munição para investir

Por Bruno Lyra

O município vem tocando algumas obras e planejando outras, mesmo com a tímida recuperação econômica do país depois de forte recessão, paralisação da Samarco, ausência de novos grandes projetos econômicos na Serra e Estado.

Mais industrializada e populosa cidade capixaba, a Serra tem o 2º maior orçamento (R$ 1,7 bilhão para 2019) do Espírito Santo, perde só para Vitória. Por isso, mesmo em cenário ainda adverso e que grande parte desse valor seja para custeio da máquina, mantém alguma capacidade de investimento público municipal, diferente das suas vizinhas Cariacica e Vila Velha, por exemplo.

Este mês, segundo a Prefeitura, estão em andamento à ampliação do Parque da Cidade, construção da Arena Riviera, drenagem e pavimentação nos bairros Taquara I, Jardim Limoeiro, Jardim Carapina, Lagoa de Jacaraípe, Residencial Jacaraípe, Jardim Atlântico e Parque das Gaivotas. Assim como a construção do Hospital Materno Infantil. E também a Rotatória de Maringá, UPA de Castelândia, dragagem do rio Jacaraípe, pista de bicicross de Novo Porto Canoa e Centro de Iniciação ao Esporte.

Há ainda a construção das creches de Vista da Serra, Central Carapina, Taquara I, Parque das Gaivotas e Jardim Limoeiro. Para completar, há previsão da obra nova rotatória do ‘O’ em Laranjeiras este ano.

O prefeito Audifax anunciou R$ 400 milhões em obras até 2020. Desse valor, R$ 230 milhões é de empréstimo. Operação que é comum aos municípios. Mas que uma hora tem que ser paga, o que pode reduzir essa capacidade de investimentos, caso o tempo de ‘vacas magras’ persista.

Outra parte desse dinheiro vem de convênios com a União e Estado. Este último, já deu sinal claro que, pelo menos agora, não vai abrir a torneira. Tanto que o recém iniciado governo Casagrande já pediu, inclusive, a devolução de dinheiro liberado na gestão anterior de Paulo Hartung, gerando mal estar com Audifax. São R$ 24 milhões, valor relativamente modesto se considerado os R$ 400 milhões anunciados pelo prefeito.

Mas que além de poder atrapalhar o andamento de algumas obras, tem potencial para gerar reflexos negativos nesses dois anos que faltam do mandato de Audifax. E não só pelos convênios, mas também por obras do Estado paradas desde 2014 como a reforma do colégio Aristóbulo e o Contorno de Jacaraípe. E ainda a crônica falta de manutenção na ES 010 no trecho da av. Abdo Saad.

Campanha rumo ao Anchieta

Yuri Scardini

O Prefeito da Serra Audifax Barcelos (Rede) já fixou como objetivo o Palácio Anchieta. Propósito mais do que justo, uma vez que administra pela terceira vez a maior cidade do Espírito Santo. Entre coisas que Audifax terá que romper está esse paradoxo entre a grandeza econômica e populacional da Serra, mas que nunca redundou em liderança política estadual.

No meio do caminho para o Anchieta, tem também sua sucessão na Serra em 2020, cláusula importante para chegar em 2022 com condição de se estabelecer como uma força significativa no tabuleiro político estadual. Porém, alguns contextos são favoráveis para Audifax sonhar com a cadeira de governador.

O prefeito busca polarizar com o governador Renato Casagrande (PSB), e o motivo está no vácuo de liderança antagônica deixada pelo declínio político do ex-governador Paulo Hartung (sem partido). Objetivamente, na ausência de Hartung como antítese à Casagrande, imaginava-se que o deputado Carlos Manato (PSL) assumiria a condição, mas não há sinais de que isso vá ocorrer. Audifax viu aí uma oportunidade.

Ao jogar o deputado Bruno Lamas (PSB) para escanteio na sua linha de sucessão e liderar esse movimento de prefeitos que reivindicam os convênios firmados com Hartung, Audifax inaugura seu movimento de contrapeso à Casagrande. Surfando no vácuo de oposição, o prefeito aposta que o Governo de Casagrande não será popular. Assim como foi com Hartung, que nem sequer conseguiu colocar um sucessor na disputa eleitoral.

Medidas de austeridade fiscal, contexto político nacional polarizado e imprevisível, aumento da pobreza, desemprego ainda sangrando, violência, possível retorno de períodos de secas, entre outras tendências devem impor à Casagrande muito desgaste ao longo dos próximos quatro anos. Como o eleitor,às vezes, não separa alho de bugalho, Casagrande é a vidraça da vez no ES e Audifax quer estar com o estilingue na mão. Agora, o que o prefeito precisa é estar colado a um projeto nacional de expressão eleitoral, pré-requisito para se colocar na disputa.

Bons agouros culturais

Bruno Lyra

O ano de 2019 começou com bons sinais para a cultura e música na Serra. Um deles, a aparição do menino Jeremias, de 11 anos, que emocionou o Brasil ao interpretar Sementes do Amanhã, de Gonzaguinha, durante estreia no programa The Voice Kids da TV Globo.  Classificado para as próximas fases do programa, Jeremias é de um dos bairros de maior vulnerabilidade social da Serra: Central Carapina. Lá obteve aulas de música através da Rede Aica, Ong especializada no atendimento a crianças e adolescentes carentes há 20 anos.

E como era de se esperar, políticos da Serra aproveitaram para colar suas imagens à do garoto. Assim fizeram o prefeito Audifax Barcelos (Rede) e o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT), antes aliados, agora ferrenhos adversários.

Outro sinal positivo é o projeto Grave-me, iniciativa do estúdio da Sonorus Produções, pilotado pelo casal morador de Laranjeiras Golias e Sara Engelhardt. Trata-se de um banco de composições inéditas de artistas locais, que fica disponível para músicos e cantores interessados em gravá-las. Um estímulo e tanto para a música local.  

E como não falar do show do mestre da MPB Beto Guedes, que rolou em Manguinhos no último sábado (12). A apresentação do mineiro formado no lendário Clube da Esquina rolou durante o Festival MPB Manguinhos, na área do restaurante Chico Bento.  Uma dádiva para os ouvidos, que já estavam acariciados pelas excelentes apresentações dos capixabas dos grupos Quarto Crescente e Beco 48, que abriram o Festival, realizado pelos moradores da Serra e produtores culturais Assis Borges e Dão Borba.  

Alías, Manguinhos tem tradição em receber ícones da música. Já se apresentaram no charmoso balneário lendas como Toquinho, Lô Borges, Geraldo Azevedo e Boca Livre.  Por isto, mais do que justo que Manguinhos seja o palco para o show de aniversário de 21 anos da banda serrana Black Set, no próximo dia 26 de janeiro.

Idealizada pelo compositor, arranjador, músico, figurinista e empresário de Chácara Parreiral, Romero Mendonça, a Black Set é marca registrada na noite capixaba com som swingado e dançante e que já gravou até com Guilherme Arantes. A noite do aniversário da banda também será no Chico Bento e terá companhia dos capixabas Macucos e Claudio Bocca. 

Sedução e risco da Serra

Por Yuri Scardini

Com a ausência do prefeito Audifax Barcelos (Rede) que não pode se reeleger somados ao misto de enfraquecimento político e chance de inelegibilidade do deputado Sérgio Vidigal (PDT), a eleição na Serra em 2020 pode ser a mais aberta entre as principais cidades do Estado.

Multiplicando esses fatos políticos com as características sociológicas que forjaram a Serra urbana de hoje, com migrações em massa acarretando em grandes bolsões de pobreza e falta de identidade com o município e sentimento de pertença, forças políticas externas olham para a Serra com lupa nos olhos, babador no pescoço e a boca cheia d’água.

Não é para menos, vitrine política de 500 mil habitantes, 1.000 cargos comissionados e orçamento bilionário são dois motivos que encantam os sedentos por poder. Apesar de haver sim, um cansaço da população com a dobradinha Vidigal e Audifax que já dura mais de duas décadas, há de se fazer justiça. Ambos estarão na estante dos prefeitos históricos da Serra.

São duas figuras progressistas, que conduziram o desenvolvimento econômico na cidade e alavancaram o município à condição de locomotiva econômica e ao mesmo tempo investiram no social e na estruturação dos bairros com unidades de saúde e educacional, só para citar. Mesmo que sejam adversários, provém de um mesmo ideal. E essa onda de renovação não pode varrer o passado e o legado de cada um.

O eleitor quer mudanças, é justo. Mas mudanças pelo simples fato de mudar pode ser uma solução desastrosa com doses cavalares de irresponsabilidade. Na ausência de Vidigal e Audifax, políticos que nem sequer moram na Serra, e que não têm absolutamente nenhum vínculo com a cidade podem tomar pra si uma prefeitura responsável por meio milhão de pessoas. O exemplo mais contemporâneo é o apresentador e deputado federal eleito Amaro Neto (PRB), mas até 2020 vai aparecer mais gente com tais intenções.

A Serra é um dos lugares mais antigos do Brasil, mas enquanto fenômeno urbano é jovem. A cidade precisar continuar com líderes que entendam os processos históricos que nos permitiram chegar até aqui, a essência de quem somos, do nosso ethos como um povo pertencente a um coletivo. A evolução é de dentro pra fora. Tanto Audifax e Vidigal representam isso, e agora se inaugura um novo ciclo que precisa estar de portas fechadas ao neopopulismo demagógico.

Com a matança em queda

Por Bruno Lyra

A Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) divulgou na última semana o número de assassinatos em todo o Estado e também por município no ano de 2018. E apesar de ainda manter a liderança em números absolutos com 187 casos, a Serra teve recuo de 40% e pela primeira vez em 23 anos não lidera os percentuais de homicídios, medidos a cada grupo de cem mil habitantes. Com taxa de 36,2, a cidade ficou atrás de Linhares, São Mateus e Cariacica.

Nos últimos anos, os dados oficiais vêm apontando queda de assassinatos da Serra, mesmo com o pico de casos durante a greve da PM em fevereiro de 2017. Curioso é o fato da queda acontecer num momento de retração econômica, onde além da crise nacional sentida com força a partir de 2014, o Espírito Santo sofreu com a paralisação da Samarco (2015), desinvestimentos da Petrobrás, mudança nas regras de distribuição dos royalties, fim do Fundap e superseca. Locomotiva da economia capixaba, a Serra sentiu o baque.  Tudo isso conjugado com a precarização paulatina da assistência social. Enfim, um extenso contexto de empobrecimento, que quase sempre vem acompanhado de mais tensão social.

Mais do que crise conjuntural, a cidade não tem neste período nenhum grande projeto que gerasse crescimento populacional por imigração, tal como aconteceu nas décadas de 1970 e 1980 com a implantação da Vale do Rio do Doce (Vale) e CST (ArcelorMittal Tubarão), além dos Civits I e II. Crescimento que seguiu com a expansão das duas gigantes da siderurgia no início do séc XXI e com o boom imobiliário.  

O comando da PM na cidade, diz que uma das explicações para a queda dos homicídios nos últimos anos é a apreensão de armas de fogo ilegais, estatística em que a Serra é líder. E também o foco na prisão de homicidas que atuavam nos bairros com maior histórico de assassinatos. Faz sentido.

Há também que se considerar a estruturação da Guarda Civil Municipal. A presença dos agentes na rua pode ajudar a reprimir ações criminosas.  Outras ações do município como melhoria da infraestrutura urbana em bairros e regiões mais vulneráveis também não podem ser desprezadas como inibidoras da matança. Até a expansão da segurança privada e a proliferação formal e informal de videomonitoramento somam nesse cenário.

Resta saber se menos violência irá redundar na atração de novos investimentos e oportunidades para a Serra.

Farejos políticos de 2020

Por Yuri Scardini

É hora de dar adeus a 2018 e olhar para 2019. O que esperar desse ano no campo político da Serra?  Nesse início é hora de reorganizar as forças no tabuleiro. Mas há muitas dúvidas, naturalmente. O certo é que 2019 será tempo de ganhar musculatura política-eleitoral e viabilizar as condições para chegar competitivo em 2020.

O prefeito Audifax (Rede) olha com lupa o orçamento e a máquina pública. Ele sabe que as entregas de obras e uma gestão de resultados são cláusulas sine qua non para entrar firme na disputa pela Prefeitura através de um sucessor político. Ele conta com algumas cartas na manga. Entre elas, a boa condição fiscal do município, que permite a tomada de empréstimos. 2019 deve ser ano da Serra se transformar em canteiro de obras com dopping de R$ 300 milhões em investimentos, fruto de operação de crédito.

Nesse início de ano Audifax exonerou todos os quase 1000 comissionados e oxigena a máquina pública com novos e até velhos nomes. Entre eles, coronel Nylton Rodrigues para a Defesa Social é o favorito no grupo do prefeito para tomar a rédea da sucessão. A partir de algo o militar tem que provar sua viabilidade eleitoral. Mas a conjuntura política atual permite sonhar com essa possibilidade.

Já no campo adversário, o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT) teve um 2018 péssimo. Processos na Justiça e decisão do Tribunal de Contas podem deixá-lo inelegível. Além disso, o Ministério Público questiona suas contas de campanha. Politicamente se isolou devido ao equívoco de lançar a esposa para deputado estadual, e por tabela, candidatura que falhou nas urnas. Vidigal precisa reciclar o discurso, as práticas e reorganizar seu grupo que desmantelou. Mas ele ainda é o Vidigal, uma das forças mais consideráveis do Estado.

Emergente é Bruno Lamas (PSB). Recém-anunciado como Secretário Estadual de Desenvolvimento Social, num contexto de aumento da pobreza e desmanche das políticas sociais. Bruno quer surfar rumo a Prefeitura empurrado pelo aliado, o governador Renato Casagrande, dono da caneta de R$ 18 bilhões em orçamento. Ainda é uma incógnita a relação Bruno e Audifax, mas sabe-se que não haverá meio termo. Ou são aliados ou adversários.

Outras forças expressivas desenham seu espaço no tabuleiro. O deputado Vandinho Leite (PSDB) come quieto e costura pelo bastidor. Pensa em política 24h e sabe enxergar as melhores oportunidades. Vai estar no jogo.

Dúvida é o PSL, partido do presidente Bolsonaro que se organiza para abocanhar prefeituras, mas estará condicionado a resultados minimamente aceitáveis a nível nacional. Será que se sustenta o raso discurso de dualidade entre direita e esquerda numa eleição local?

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