Serra, 20 de julho de 2017

Portal Tempo Novo - O Portal da Serra, ES

Na Via

por Bruno Lyra

“Tem gente morrendo no PA por falta de vaga nos hospitais do Estado. E a gente leva a culpa”

Bruno Lyra

Fabrício Ribeiro

Cariacica é o terceiro município capixaba mais populoso, mas tem o orçamento per capita mais baixo.Com pouco recurso e muita demanda para atender, o prefeito Geraldo Luzia de Oliveira  Junior, o Juninho (PPS),  reclama da perda de arrecadação para Vila Velha, mas garante que a saída é planejar e priorizar o que precisa e dá para ser feito, além de economizar e cortar custos. Nesta entrevista, entretanto, o prefeito falou sobre os grandes problemas sociais. Na saúde, apontou a lotação do PA de Alto Lage que atende 30% de não moradores e até internamentos improvisados pela falta de vaga na saúde estadual. Tudo custeado pelo município. Na educação, a falta de vagas em creches é a maior preocupação. Falando de habitação, destacou que Cariacica tem mais de 8 mil famílias carentes. Já na segurança pública, disse que os dados de violência e homicídio que estavam despencando voltaram a crescer depois da crise do policiamento no Estado.

Prefeito, como anda a arrecadação de Cariacica?

Juninho disse que a falta de vagas em creches é gargalo na Educação e que está brigando contra as perdas fiscais para o município de Vila Velha. Foto: Bruno Lyra

Tivemos uma forte queda e hoje estou numa briga. Antes, nossa arrecadação com o setor de logística era 70% maior do que hoje. Vila Velha me tomou isso. Começou a armazenar. Você passa na Lindemberg e vê aquelas montanhas de conteiners. Isso é ilegal. A lei é clara: as áreas para armazenamento de produtos portuários tem que ser alfandegadas e as únicas em condição na Grande Vitória são as de Cariacica. Armazenar, Cariacica. Transbordo, os portos.  Trazendo isso de volta somado com os novos negócios a realidade da arrecadação vai mudar.

Como é administrar uma cidade com quase 390 mil moradores, muitas carências e um orçamento de menos de R$ 400 milhões? Por exemplo, a Serra e Vitória têm orçamentos de cerca de R$ 1 bi e de mais de R$ 1.5 bi, respectivamente, e nessas cidades há queixas de falta de recurso.

Tenho o menor orçamento per capta do estado. A única capixaba no G 100, grupo das cidades mais pobres do país com mais de 250 mil moradores. Como se consegue fazer toda essa engenharia e manter os serviços? Abrir o maior PA do ES, colocar tudo para funcionar? É engenharia, é gestão. Primeiro com bom planejamento. Segundo, estabelecendo prioridades. E ter uma linguagem muito clara com a população sobre o que dá e o que não dá para fazer.

Quais seriam essas prioridades?

Redução de custeio, por exemplo.  Estamos saindo de cerca de R$ 2 milhões em aluguel para algo em torno de R$ 700 mil. Estou conseguindo isso juntando secretarias espalhadas pela cidade e trazendo para um único local, a 200 metros da prefeitura. Isso também vai facilitar a vida do contribuinte. Criamos a consciência no servidor que economizar no custeio dá a ele a garantia do salário em dia. Pago sempre antes do último dia do mês. Além da negociação com fornecedores, reduzi em 20% os orçamentos das secretarias, telefone, combustível.  Reduzimos cargos comissionados.

O PA de Alto Lage é adulto e pediátrico e segundo Juninho 30% dos atendimentos são para pacientes de outras cidades, mas Cariacica faz todo o custeio. Foto: Divulgação/Prefeitura de Cariacica

A Saúde está funcionando bem na sua gestão?  

A saúde não está. Quando informatizarmos, vai funcionar. O PA de Alto Lage, além de atender pelo menos 30% de pessoas de fora de Cariacica, está funcionando como um mini hospital, mas só com recurso do município. Os PA´s não foram feitos para internação. A Central de Vagas quem administra é o Governo do ES. Precisou internar já deveria ter vaga, mas não está tendo. Tem gente ficando 20 dias e até morrendo no PA por falta de vaga nos hospitais do Estado. E a gente leva a culpa. Estou fazendo uma grande auditoria e levantando gargalos, uma coisa que vai ajudar muito é o ponto eletrônico, que também vamos adotar em outras áreas.

Assiduidade de médicos e outros servidores é um problema? 

Sim. E o pior: quando a gente aperta, médicos começam a pedir para ir embora. Nossos problemas de atendimento são porque não conseguimos repor os médicos no prazo, há burocracia para a contratação. E um debate a nível estadual é que uma cidade vizinha não pode oferecer um salário muito mais alto que outra. Aqui eu cobro o ponto e a outra não, aí eu perco o médico. Mas hoje isso está mais calibrado.

Você consegue médicos para as periferias?

Algumas unidades a gente ainda tem dificuldade de conseguir os profissionais. É um problema difícil de resolver.  É um outro desafio na saúde.

Qual é o maior gargalo na educação?

Falta de vagas em creches é o maior problema na Educação. Quando cheguei só 20% das crianças de 0 a 3 anos estavam sendo atendidas. Agora chegamos a 23%. Agora temos que trabalhar e colocar em tempo integral, que é o outro desafio. Me comprometi que no meu governo faríamos pelo menos mais 10 creches, já licitamos cinco e iniciamos as obras de três. Atualmente temos 106 unidades educacionais, sendo 28 creches.  Com essa crise muita gente ficou desempregada e aí perdeu o plano de saúde. Sobrecarregou a rede pública. Na educação, a mesma coisa. Não posso deixar de aparelhar melhor essas estruturas para atender essas pessoas, que tem o mesmo direito que as demais.

E na habitação? Há quantas famílias em situação de carência?

Pouco mais de 8 mil famílias. Tivemos uma reunião com Sinduscom e Caixa Econômica e as empresas estão muito interessadas em Cariacica e elas fizeram um planejamento de iniciar aqui na cidade cinco mil unidades do Minha Casa Minha Vida que atenderia um público enorme. Se esse ritmo for factível, até o fim do mandato a gente consegue chegar a 10 mil unidades habitacionais.

Como está a segurança pública, índice de homicídios?

Temos as 124 câmeras de videomonitoramento e parceria com as polícias. Mas o que aconteceu é que estamos com um fato novo no ES. Até iniciar o movimento da PM, Cariacica era referência na redução de homicídios.  Chegamos a ficar 12 dias sem homicídios. Aí veio essa crise e a polícia não está emocionalmente mais no mesmo ritmo. As ocorrências voltaram a crescer.

Cariacica pretende ter guarda municipal?

Sim. Mas quando tivermos recursos financeiros. Por enquanto, temos a guarda de trânsito.

Prefeito aposta que Cariacica será uma referência na economia capixaba

Bruno Lyra

Fabrício Ribeiro

Os últimos anos tem mostrado Cariacica mais dinâmica e atrativa para empresas e negócios, apesar da sua arrecadação modesta. Nessa entrevista, o prefeito Geraldo Luzia de Oliveira Junior (PPS), o Juninho, no seu segundo mandato consecutivo, diz que Cariacica vai se consolidar em logística e tecnologia e que vai abrigar uma zona franca. Defende um redesenho da mobilidade metropolitana da Grande Vitória – ES e que o aeroporto de cargas fique na Serra. 

Cariacica vem atraindo novos empreendimentos e negócios. Isso num momento de crise.

Juninho revela que a cidade terá uma zona franca na Rodovia do Contorno. Foto: Bruno Lyra

Qual sua avaliação?

Cariacica teve uma história política difícil, mas isso mudou. O Ex-prefeito Helder (Salomão, PT, atual deputado federal) conseguiu mudanças e eu quando assumi, valorizei essas conquistas e trabalho muito para avançar. O que estamos fazendo é priorizar, organizar, planejar e, claro, muito envolvimento com a cidade. 

O município tem cerca de 10 km de litoral na Baia de Vitória, mas pontes praticamente impedem o acesso de embarcações. É possível o aproveitamento portuário dessa orla?

Sim. Licenciamos uma área em Porto Novo para mais uma pedreira na cidade, onde queremos trazer um porto de barcaças, que são baixas e poderão passar por baixo da 2ª ponte e interligar aos portos de Vitória e Vila Velha, de onde vão poder escoar e receber mercadorias. Esse modelo é usado em Amsterdã, Holanda com sucesso.

Quais cargas seriam operadas neste porto?

De contêineres a veículos, produtos a granel, rochas. Com isso eu tiro o fluxo de veículos pesados das regiões de Campo Grande, Jardim América e 1ª e 2ª pontes.

Um porto em Cariacica então pode melhorar a mobilidade na Grande Vitória?

Sim. E uma outra iniciativa seria uma pista elevada de 3km entre Porto Novo até a rodovia do Contorno passando por trás das EADI’s (Estações Aduaneiras de Interior).  Defendo tornar Cariacica, que é a única cidade da Grande Vitória que se comunica com as demais, ser o ponto de distribuição desse tipo de segmento levando em consideração o futuro porto no sul do estado.

O senhor está dizendo que mesmo a Serra sendo a capital logística do ES, Cariacica tem uma vocação mais precisa para isso?

Cariacica tem uma localização mais precisa. Tem muitas empresas de logística da Serra vindo para cá.

Qual é a atual planta logística de Cariacica e qual a perspectiva de crescimento?

Para Juninho, quarta ponte entre Porto de Santana e Jardim da Penha, além de porto de barcaças, resolvem gargalo logístico da entrada sul da Grande Vitória. Foto: Bruno Lyra

Temos três Eadis (Estações Aduaneiras de Interior) que tem o privilégio legal disso: Terca,  Silotec e Tegma.    Também na região da rodovia do Contorno vamos receber uma Zona Franca similar a de Manaus. Assim, criaríamos toda uma convergência logística que dificilmente outra cidade no Brasil teria: BR´s 262 e 101, Contorno de Aroaba ( estrada quase pronta ligando a ES 080 ao Contorno de Vitória), linha férrea e o acesso ao mar pelo rio Santa Maria e por essa via futura que ligará a Porto Novo, além das Eadis.  

E a demanda estadual por um aeroporto de cargas?

Para Cariacica é inviável em função do aterro sanitário da Marca Ambiental no raio de um quilômetro da área pretendida. Acho que ele deve ficar na Serra. Vila Velha tem um problema: ou você chega por terra pelo sul ou o restante é ponte, inclusive para Cariacica. A Serra consegue se comunicar com Vitória e Cariacica muito mais fácil.  Sem contar que já existe um estudo antigo para o aeroporto na Serra.

E a sonhada quarta ponte?

Precisamos sim. Mas não pode sair de Porto de Santana para cair em Santo Antônio, como queria o Governo do Estado. Saio de um aglomerado menor para um maior. E de todas as formas terei que passar por dentro de aglomerados. Defendo que saia da região do Contorno, na altura da Terca, passando pelo Canal dos Escravos e saindo lá na Ufes, na região de Jardim da Penha.

Mas e o gargalo das divisas Cariacica, Vitória e Vila Velha?

Quem quer ir para a Ilha do Príncipe ou Centro de Vitória, vai pela 2ª ponte, que poderá ser descongestionada pelo sistema de barcaças e pela via elevada exclusiva para cargas entre Porto de Santana e a região da Terca. A iniciativa privada já sinalizou interesse nisso. Essa estrada por sua vez se conectaria à futura 4ª Ponte na região do Contorno. É uma visão estratégica de longo prazo que já conversei com o Governo do ES.

Mas nesse caso, a mobilidade em Vitória seria um problema…

Um projeto está sendo contratado pela Associação de Empresários de Cariacica (AEC) com essa visão diferente do projeto original da 4ª ponte. A ideia é aproveitar o alargamento das faixas na Vila Rubim (na área onde prédios foram demolidos) e ter uma via exclusiva para a Cinco Pontes.  Elevado e túnel completariam esse redesenho.

Prefeito, a rodovia Leste Oeste está com obras em andamento. Como ela vai dinamizar a economia de Cariacica?

É um canal viário para o porto de Vila Velha que está quase pronto. Por conta dessa via, a gente está trabalhando um novo polo industrial que será anunciado em breve que ficará entre Cariacica e Viana, na região de Padre Gabriel, pegando a futura rodovia 447, que vai ligar a Leste – Oeste à BR 262 na altura da Real Café, em Viana.

Quantos polos industriais já existem na cidade?

Dois polos. Um deles, o da Codep, fica na Rodovia do Contorno e é misto. Tem logística também. Lá tem Transilva, Arezzo e Aladim. O outro polo é o VTO, às margens da Leste – Oeste, na região de Bela Vista. Nós temos também dois micropolos: um na foz do rio Bubu e outro nos bairros Santo Antônio/Campo Verde na região da Rodovia do Contorno.

Que tipo de empreendimentos há nesses micropolos?

Moveleira, cozinha industrial, lavanderias. E temos ainda o micropolo de Jardim América que existe naturalmente próximo ao Engenheiro Araripe, mas ainda precisa ser formatado.  Temos plano para ter outro elevado ali, saindo de Vila Velha e chegando da avenida do estádio Engenheiro Araripe. Já a alça que hoje sai da 2ª ponte e desce para Jardim América será só mão subindo.

Você falou sobre a instalação de uma Zona Franca de Cariacica. Como será?

Será com o mesmo modelo da Zona Franca de Manaus, que é por licitação. Empresas de Cariacica disputaram a zona franca daqui e duas ficaram no final e estão em litígio judicial para ver quem leva. Isso vai se resolver e a Zona Franca daqui ficará entre a Terca e a Silotec, na rodovia do Contorno.

Essa Zona Franca vai receber que tipo de empreendimento?

Temos de tudo. Desde equipamentos eletrônicos a produtos que serão nacionalizados, com regime fiscal diferenciado. O que não se cobra na Zona Franca de Manaus, não se cobrará aqui. Poe exemplo, não se cobrará ISS enquanto o produto não for nacionalizado. Quero criar ambiência para empresas para que montem equipamentos dos mais diversos aqui.

Cariacica também vem vai apostar em tecnologia e conectividade?

Estamos instalando cabos de fibra ótica por toda a cidade para interligar todos os prédios públicos, unidades de saúde, escolas. No futuro esse recurso também vai beneficiar a população com acesso e wifi através da empresa responsável. Nós conseguimos uma licitação que quebrou a hegemonia da Oi. Agora temos cabos duas vezes mais potentes e 50% mais baratos. Com isso vai dar para gerir saúde, educação e assistência social de forma integrada e em tempo real.

E na área de tecnologia da informação?

Vamos ter um centro tecnológico. É o Cepid, que vem sendo instalado pelo Estado. A proposta é trazer o mundo acadêmico e a previsão é que fique pronta até o fim do ano. A iniciativa privada está mobilizada, assim como a Findes. Vamos levar as empresas privadas para que possam trabalhar com o acadêmico, abrigando start ups e incubadoras.

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