Por Clarice Poltronieri
Uma das atribuições do poder público municipal é ordenar o uso e ocupação do solo da cidade. Tarefa que a prefeitura da Serra tem feito com enorme dificuldade em várias gestões. Não é para mais, a cidade foi/é destino de muitos imigrantes vindos de outros estados. Em pouco mais de 40 anos, a cidade ganhou mais de 450 mil habitantes. É natural que o poder público tenha dificuldades em regular este crescimento. Porém, não se pode também se agarrar a isso. Ainda hoje existem pequenos focos de crescimento desordenado que precisam da mão reguladora da administração municipal.
Um dos exemplos atuais é um bairro, denominado pelos moradores de Palmeiras II, que nasceu há cerca de seis anos, mas não possui sequer fornecimento de energia elétrica e água regularizados. Segundo os moradores, e a própria prefeitura admitiu, o bairro é fruto de um loteamento irregular, mas que a Prefeitura não deu conta de controlar, mesmo ficando tão próximo à administração da cidade.
Além da ausência dos serviços básicos mínimos de água e luz – isso sem falar o esgoto a céu aberto – há também construções em áreas de risco de alagamento e desabamento, já que o local possui um vale e fora todo desmatado para dar lugar às residências. As casas são construções bem-feitas, em sua maioria, e mostram que quem foi para lá, quer ser um cidadão e contribuir para o crescimento da cidade, mas até isso lhes é negado, já que cerca de 300 famílias usam ligações clandestinas de água e luz, os populares ‘gatos’, para sobreviverem.
A dificuldade da administração pública em controlar tais problemas parece atravessar décadas e, mesmo no século XXI permanece. Um dos grandes exemplos históricos é Jacaraípe, a região sofreu com o crescimento desordenado absurdo, e hoje tem inúmeros problemas sociais. O que fora outrora um dos bairros mais badalados do litoral capixaba, competindo com Guarapari e Marataízes, hoje possui imensas casas abandonadas, um problema crônico de violência, que desvaloriza os imóveis e espantam os turistas. Jacaraípe hoje é a consequência da ausência do poder público no período de crescimento do local, com muitas invasões e loteamentos em áreas de preservação ambiental.
Tal dificuldade do poder público em manter uma ordem estabelecida não se aplica apenas nas construções irregulares. Outro exemplo, dessa vez contemporâneo, foi a inserção de 608 famílias de baixa renda – ou seja, aqueles que mais necessitam dos serviços públicos, no bairro Ourimar sem lhes oferecer infraestrutura básica, inflando os serviços em Manguinhos e levando ao balneário da cidade os reflexos da falta de planejamento dos gestores serranos. É preciso repensar na forma de fazer política nesta cidade e entender que os exemplos passados não podem se repetir, a Serra amadureceu enquanto cidade e não pode se dar ao luxo de permitir invasões e crescimento desordenado.