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Opinião | Soberania e importância de Vitória nunca dependeram tanto da Serra (a ex-vizinha indesejada)

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Foto: Divulgação

Ao norte a Sudene avança e já chegou em Aracruz; somente entre janeiro e abril desse ano, a cidade já abril 1.872 postos de empregos formais, de acordo com dados do Governo Federal, quase 500 a mais do que a Serra, por exemplo. Só o estaleiro Jurong, vai abrir ainda esse ano 600 postos de trabalho com a construção do Navio de Apoio Antártico da Marinha do Brasil.

Pouco mais acima, Linhares, acabou de inaugurar a nova pista do Aeroporto Regional no município, que já recebeu a homologação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e agora está liberada para operar; passo importante para a conexão logística entre a região norte do Espírito Santo e outros Estados do País.

Aracruz e Linhares são duas das cidades com as melhores perspectivas de crescimento econômico nas próximas décadas, muito devido a privilegiada infraestrutura logísticas aeroporto, ferrovia, portos e rodovias, fortalecendo a vocação para abrigar grandes empreendimentos.

De acordo com o Instituto Jones dos Santos Neves, em 2019 – último dado divulgado – Linhares e Aracruz já eram a 5ª e 6ª economia do Espírito Santo, respectivamente. E de lá para cá as coisas só melhoraram para os dois municípios. Diferente de Vitória, por exemplo, que vem perdendo importância econômica no estado. Em 2002 a capital era líder isolada com 26% da participação do PIB (Produto Interno Bruto) do ES; em 2019 ficou em 2º lugar, perdendo para a Serra, com 15%.

Dados estes que se refletem com mais ênfase ainda no setor industrial, do qual Vitória ocupava a vice-liderança no ES (16,4%); e em 2019 foi parar na 7ª posição (5,1%) atrás de Linhares e Aracruz, por exemplo.

A Capital também vem perdendo importância no setor de Serviços; em 2002, 27,7% de tudo que era produzido pelo setor no ES vinha de Vitória, liderando com folga; 17 anos depois, em 2019, perdeu 10% de importância geral no setor de Serviços, descendo para o 2 º lugar (17,7%) e vendo as duas cidades ao norte subindo cada vez mais.

No sul economia do petróleo vai descarregar bilhões

Se ao norte, a economia avança, ao sul não é diferente; o litoral sul capixaba respira petróleo. Com previsão de investimentos bilionários, vindo de empresas como Petrobras e Shell, que devem descarregar caminhões de dinheiro na região.

O mais aguardado é o projeto Integrado Parque das Baleias (IPB) do qual a Petrobras vai instalar o navio-plataforma FPSO Maria Quitéria com operações previstas para 2024, para atuar no pré-sal na extração de óleo e gás do campo de Jubarte, na região petrolífera denominada Parque das Baleias, no litoral sul capixaba. O investimento estimado? R$ 5,6 bilhões (2 vezes e meia o orçamento da Prefeitura da Serra para 2022).

Na fase de operação, estima-se que a plataforma produza 100 mil barris de óleo e 5 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Além de aumentar os royalties das cidades ao sul, vai dinamizar a economia em cadeia, de cidades como Anchieta, Piúma, Itapemirim, Marataízes e Presidente Kennedy, por exemplo.

É um 2024 também que a Vale prevê a construção de um ramal ferroviário ligando a Estrada de Ferro Vitória Minas (EFVM) até Anchieta. Projeto antigo, mas que está se afunilando. Essa é a primeira etapa de um projeto maior que é ligar o Espírito Santo ao Rio de Janeiro por trilhos.

A Vale também está elaborando um projeto que vai ligar Anchieta a Presidente Kennedy, dinamizando ainda mais o setor logístico e atraindo empresas de vários segmentos. Enquanto isso, a Samarco segue com as atividades sendo retomada aos pouco após o rompimento da barragem de Mariana (MG).

Serra é quem pode tirar a capital do isolamento

A capital vê sua importância econômica diminuindo – o último grande projeto foi a inauguração do Aeroporto em 2018 –  enquanto a Grande Vitória começa a ficar apertada demais para ela. Para conseguir avançar economicamente e não ficar no meio do caminho, Vitória precisa aumentar sua integração com Vila Velha, Cariacica e Serra.

Entretanto, por ser uma ilha, as ligações a deixam em estado de isolamento, literalmente. A 3ª ponte não suporta mais  o aumento de integração metropolitana rodoviária entre a capital e Vitória. Para fazer a travessia em horário de pico, o motorista pode levar facilmente mais de 1 hora.  A segunda ponte que liga Vitória a Cariacica e Vila Velha nem se fala. A ponte Florentino Avidos é mais um patrimônio histórico cultural, do que necessariamente uma via de acesso. Já se fala de uma 4ª ponte há algum tempo, ideia que soa como fantasia.

O morador de Vitória, aqueles mais provincianos, preferem o isolamento; mas caso ocorra efetivamente, a ilha de prosperidade deve começar a mudar de realidade, para pior. A solução para a manutenção do poder político, da soberania e importância de Vitória está na Serra. É no contexto urbano, a única cidade em que Vitória ainda pode se escorar para crescer.

Para isso, é necessário projetos robustos de interligação pela BR-101 que se tornará avenida municipal, chamada Mestre Álvaro; e a despressurização do trânsito na Avenida Norte Sul. A Prefeitura da Serra tem projeto para ambos os viários, projetos ousados e divulgados com exclusividade pelo Serra Podcast, que é vinculado ao Jornal Tempo Novo.

O projeto de transformar a BR-101, quando municipalizada após a entrega do Contorno do Mestre Álvaro (prevista para março de 2023) em uma via expressa, sem semáforos e cruzamentos, é talvez uma das ideias mais ousadas que já surgiu na cidade nas últimas décadas.

Orçado em meio bilhão, a Prefeitura teria que resolver pelo menos 7 ou 8 nós de trânsito, fazendo passagens de nível inferior ou subir pistas, com o desafio de manter a acessíveis as entradas e saída dos bairros que margeiam o trecho de 31 km que passará para as mãos da Prefeitura (que se estende de Belvedere no extremo norte da cidade, até o condomínio Alphaville).

Uma via expressa entre Serra e Vitória salva a capital do isolamento metropolitano e cria uma maior integração entre as cidades que beneficia os dois municípios.

A outra via, é a Norte-Sul, que também receberá obras importantes, como o binários, transformando parte dela em mão única sentido Vitória x Serra e transferindo o tráfego oposto para a avenida Lourival Nunes, remodelando toda a região de Jardim Limoeiro.

Além do outro projeto de mergulhão da Norte Sul na divisa com Vitória, liberando o trânsito para fluir continuamente sem obstrução de sinal e do cruzamento entre as avenidas José Rato e a João Palácios; obra essa que precisa ser feita pelas duas cidades, por se tratar de uma divisa.

Se fala também de uma terceira ligação entre as duas cidades, criando um viário por dentro do Complexo de Tubarão; projeto que dependeria muito dos interesses das empresas Vale e Arcelor Mittal que tem forte atuação nos bastidores para barrar aquilo que geralmente nãos as convém.

De todo modo, o isolamento de Vitória significa a perda de importância da capital; e observado em uma perspectiva de longo prazo, é também uma ameaça ao seu prestígio. Vale lembrar que Vila Velha já foi a capital do Estado, e que o Centro de Vitória já foi um dos locais mais balados da capital, que a região do Queimado já foi um dos pontos comerciais mais importantes do Espírito Santo; que Serra Sede já foi o coração comercial do município; que Nova Almeida já foi uma cidade independente e tantos outros milhares de exemplos mundo a fora.

Quem isola todo mundo, é no final das contas o verdadeiro isolado e não ao inverso. A balança de poder está mudando no ES? Quem sabe, em perspectiva histórica não seria nenhuma novidade; o norte avança no setor industrial e de serviços, o sul litorâneo vai surfar em ondas de petróleo; a interligação metropolitana rodoviária de Vila Velha e Cariacica com a capital está bem próxima do limite.

Sobrou para a Serra, paradoxalmente, tida por anos como a vizinha pobre, problemática e indesejada, estender a mão para a nobreza capixaba que começa a perder espaço no cenário estadual.

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